Violência no campo fluminense

Os conflitos de terra no Rio de Janeiro ganharam novo ímpeto em meados do século passado, mais precisamente na década de 1950.

Os focos de conflito envolvendo disputas entre “posseiros” e “grileiros” passaram a pipocar um atrás do outro e cobriram praticamente todos os cantos do estado. Era possível observar disputas em Parati, Barra Mansa, Barra do Piraí (Médio Paraíba), Duque de Caxias, Tinguá, Magé, Nova Iguaçu, Cachoeiras de Macacu, Rio Bonito (Baixada Fluminense), Campos e São João da Barra (Noroeste Fluminense), Cabo Frio (atual Costa do Sol), Silva Jardim e Conceição de Macabu (região Serrana).

Em algumas localidades os conflitos ganharam contorno de luta armada, como em Conceição de Macabu e Tinguá. Mas mesmo que todos os demais não tenham chegado a essa situação-limite, o quadro dessas disputas era marcado por intensa violência – de “grileiros” contra “posseiros”. Um dos desdobramentos desse quadro foi a profusão de criação de organizações camponesas, criadas por parte dos “posseiros” e mediadores políticos (comunistas na esmagadora maioria dos casos) exatamente como medida visando minorar a enorme assimetria de poder entre eles e os supostos proprietários de terra.

Mário Grynzpan chega a afirmar que o meio rural fluminense se apresentaria nos anos 60 como um verdadeiro “barril de pólvora”. Em sua dissertação de mestrado, Mobilização camponesa e competição politica no estado do Rio de Janeiro (1950-1964), defendida em 1987, está repleto de evidências desses conflitos.

Penso que se quisermos realmente compreender o quadro quase caótico de conflitos e mazelas que atualmente sangram o estado do Rio de Janeiro, temos que buscar suas causas não em explicações folclóricas como a fusão da Guanabara com o antigo estado do Rio (raciocínio mais fundamentado em preconceitos e delírios do que em dados concretos), ou a mudança da capital para Brasília (as belezas naturais do Rio foram deslocadas para o planalto central também?), ou a desindustrialização da sua economia (como se ela tivesse sido o principal motor alguma vez na sua história). Precisamos isso sim recuperar a história da questão agrária no estado: uma história marcada por muita violência, injustiça e pela atuação desastrosa e irresponsável dos vários governos do estado, que sempre procurou acobertas os grupos ligados aos interesses da grande propriedade. A questão agrária tal como se desenrolou no Rio gerou profundas e danosas consequências o desenvolvimento socioeconômico do estado: êxodo rural, agricultura precária, exportação de boa parte dos alimentos consumidos na região metropolitana, insegurança no acesso a terra por parte de lavradores e trabalhadores urbanos tanto no interior quanto nas periferias urbanas.

Isso sim explica muita das mazelas do Rio de hoje. É possível que esteja aí o cerne socio-histórico que levou ao aparecimento das milícias.

Os conflitos dessa época e a repressão violenta gestada pela ditadura militar deixaram muitas feridas abertas; o direito do pobre à terra se viu diretamente sequestrado. Todo um movimento de luta teve que ser penosamente refeito a partir do final da década de 1980.



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