Uma leitura liberal sobre os impasses do mundo

Parece ter virado uma obsessão da esquerda brasileira: dizer que Bolsonaro e seus seguidores não passam de idiotas, quadrúpedes, jumentos, portas, bestas quadradas e outros elogios.

É realmente impressionante o tempo gasto com esse tipo de empreendimento.

Não é preciso ser um grande especialista para perceber que se trata de uma iniciativa inócua, já que ele pouco esclarece sobre os fundamentos do fenômeno que garantiu a ascensão política de um personagem comprometido com práticas e valores os mais nefastos de nossa história recente.

Ou seja, já era hora de dar mais tempo para tarefas, digamos, mais elevadas.

Uma delas é exatamente direcionar mais energias, tempo e estudo para possíveis saídas desse abismo em que nos encontramos. Para isso, é fundamental que a esquerda pense mais em pensar do que agir. Penso que seria mais frutífero mobilizarmos nossa capacidade de produção de conhecimento para o desvendamento das bases sociais e históricas do bolsonarismo.

Partindo dessa premissa, seria muito interessante que nós nos debruçássemos mais sobre estudos de fenômenos parecidos com o que estamos vendo no Brasil, como é o da ascensão de uma extrema-direta em outros cantos do mundo.

O livro de Iann Bremer faz isso de certa maneira. Tomando como ponto de partida o caso dos EUA a partir da eleição de Donald Trump em 2016, ele analisa questões como o crescimento dos populismos de direita, os grandes levantes sociais ocorridos nos últimos 5 anos, a Primavera Árabe, os impasses da Globalização, o fenômeno da desigualdade social e o problema do desemprego estrutural.

A análise de tudo isso é norteada por uma questão de fundo: estamos diante de um revigoramento, talvez da mesma forma como visto no entreguerras, da clássica forma de mobilização de grupos sociais com base na configuração “Nós contra Eles”. Esse é o sintoma mais visível do fracasso da Globalização, junto com o fenômeno da desigualdade.

Logo na apresentação, Bremmer nos esclarece:

Os EUA elegeram um presidente protecionista, anti-imigração, que prometia pôr a América em primeiro lugar. Na Europa, o Brexit avança e os partidos extremistas estão a cada vez mais perto do poder.

Os paladinos da globalização prometeram-nos riqueza generalizada, mas desfeita esta fantasia, vemos o populismo propagar-se pelo mundo, alimentado pelos fracassos do globalismo. À deriva, um conjunto cada vez maior da população vê o seu futuro negado, deixa de reconhecer as caras e a cultura que a rodeia e escolhe encarar, cada vez mais, o mundo como uma batalha entre «nós» e «eles».

Quando o ser humano se sente ameaçado, tenta identificar os perigos e procurar aliados usando o inimigo identificado, real ou imaginado, para os recrutar.

Este livro trata de como definimos essas ameaças e lutas pela sobrevivência. Trata dos muros, físicos ou digitais, que os governos erguem para proteger os que estão dentro dos que estão fora e para proteger o Estado dos seus próprios cidadãos. E trata do que podemos fazer para endireitar o mundo.

A estrutura do livro é simples: Bremmer inicia analisando os principais movimentos de protesto, como a Primavera Árabe; depois disso realiza uma análise mais econômica das principais economias em desenvolvimento, como os países componentes do Brics (China, Brasil, África do Sul, Rússia e Índia) e potencias emergentes como Turquia, México e Nigéria, destacando aspectos como aumento da desigualdade, desemprego, produção, políticas sociais etc.; e finaliza discutindo a importância de se estabelecer novos pactos sociais para enfrentar a crescente desigualdade e os efeitos sociais de uma economia cada vez mais automatizada.

Logicamente que o livro de Bremmer não é inocente ou puramente técnico. Estamos falando de um autor profundamente comprometido com o ideário Liberal e que atua estreitamente com grandes companhias e empresas do mercado financeiro mundial. Não podemos esquecer que ele coordena a Eurásia, uma empresa de consultoria sobre geopolítica que tem bancos e multinacionais como seus principais clientes. Portanto, a leitura não pode ser ingênua.

Mas não deixa de ser instrutiva dos dilemas que a situação mundial, marcada por profundos conflitos, desperta em segmentos ligados ao Grande Capital.

Um aspecto a se lamentar no seu estudo é a maneira bem superficial pela qual ele conduz as análises sobre a conjuntura socioeconômica de vários países no capítulo 2.

Contudo, esse mesmo livro contém alguns méritos. E o principal deles é demonstrar como fenômenos como o da xenofobia e da ascensão do populismo de extrema-direita tem seus fundamentos numa determinada dinâmica social de uma conjuntura específica, marcada por profunda desigualdade e esgarçamento de antigos “pactos sociais”. Não se trata de um fenômeno de ordem moral ou cognitiva. Seus protagonistas não são jumentos ou idiotas. Isso é reduzir tais fenômenos a uma simples questão de caráter individual. O fenômeno é muito mais amplo. E como tal exigem reflexões mais profundas. E sérias.



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