Três da manhã

Abro os olhos, e sinto que estou completamente desperta. Estranho, nunca tive insônia. No quarto, ainda escuro, vou tateando a mesinha ao lado da cama para achar o celular: “… três da manhã?!”. O ponto de interseção entre a noite e o início de um novo dia, o meio, o ápice, quando é tarde para ir dormir e cedo para acordar. Fico por instantes indecisa, mas vou na segunda opção. Levanto, passo a mão no celular e saio do quarto. A miopia forte me impede de fazer qualquer outra coisa antes de ir ao banheiro para colocar as lentes. Nisso, não tenho o menor poder de escolha.

Já na cozinha, olho para o celular, e fico feliz por lembrar que posso ligar para alguém especial e que está em outro fuso horário. Lanço um WhatsApp antes:

“acordado?”

“sim”

“pode falar?”

“posso”

E dali sai um papo. Tranquilo, como o silêncio da madrugada. Mesmo que não demore muito, a conversa flui aconchegante. É talvez a curiosidade do inusitado horário que trouxe de volta o calor da intimidade esmaecida pela distância. Termino a chamada contente, desligo o celular e caminho até a janela. Apesar do clima quente de verão sinto o frescor e a pureza do dia nascendo. Aproveito a última frase que ouvi do meu interlocutor e decido também fazer um café. É a chancela na decisão de acordar. Um definitivo acolhimento à disfunção horária.

Volto ao quarto, pego o notebook para escrever, e decido que tudo aquilo já virou uma farra. Ponho a água no fogo, ajeito o coador de pano no bule e vejo que o colorido lá fora está gradualmente mudando de cor. Agora parece ter se aberto num sorriso escancarado. De violeta-mistério passou a azul-celeste-de-desenho-de criança. Enquanto isso, a água quente agora desmancha o pó em apelo ao aroma único que só o café tem.

É engraçado como essas coisas singelas trazem lembranças da infância. É uma sensação que eu diria não pertencer a este mundo. Tem algo inexplicável nelas. Lembrei de quando íamos com nossa mãe para a praia de ônibus assim que começava a clarear o dia. Era como se estivesse ali naquele exato momento.

Por mais complicado que a vida da gente possa ser, há truques mágicos, uma simples mudança de hábito ao amanhecer…

Hoje só precisei de: não pensar na hora, uma pessoa do outro lado, um café e o frescor da aurora.



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