Sou Rio

Passou o dia e nem lembrei que ontem foi meu niver. Alguém fez um bolinho? Não vi comemoração nenhuma. Tá bem que a epidemia pode servir de desculpa, mas daí não ver nada nas redes sociais, pelo menos nas páginas que fizeram para mim, tenho várias…é que tem algo estranho.

Sei que vai ficando cansativo comemorar quando já se passa dos 400 anos, mas é que gosto dessa festa. Quando cantam Cidade Maravilhosa então, me arrepio toda. Fico toda sestrosa. Piso no salto da sandália havaiana e vou por aí, mesmo sem saber onde parar.

Mas eu no fundo, entendo.

Com esse cenário cheio de mi-mi-mi. De milícia, militar, ‘mico’ e mito eu mesma não me reconheço. Nada disso combina com meu riso largo, pandeiro, minha filharada correndo sem medo.

Esse excesso de armas, essa agressividade petulante não combina comigo. Minhas formas geográficas são curvilíneas, cortadas pelo mar, formando minha larga baía ondejante, uma floresta no meio, arte, música! è assim que sou.

Minhas montanhas são altas para abrigar meus filhos despejados. Filhos jeitosos, vão no tijolo com tijolo e se encostam na minha pele rochosa quente e afetuosa e ficam ali, agarrados. Eles e um Cristo de braços abertos. Sou essa liberdade de ser e abraçar a todos, sem discriminação, sem preconceito.

Não venham com dogmas universais, que querem que sirvam para todos como se eu quisesse me vestir com roupa de quartel.

Na mesa de minhas casas, dos filhos que amo, católico senta junto com judeu, protestante e muçulmano. No primeiro dia do ano, joga-se flores para iemanjá e pula-se as sete ondas vestidos de branco. E, em cima da mesinha da sala, sobre um paninho de tricô tem as imagens que for, seja S. Jorge, Preto Velho e Maria, e uma vela no meio abençoando os três ao mesmo tempo.

Minha raça é colorida, meu gênero é carioca, minha fé é mista.

Por isso, estranhas criaturas, vão logo tratando de vacinar meus filhos. Desinfeta esse ranço de senhorios. Quem comprou de quem não sei. Mas lá atrás minha terra era de ninguém. Alguém tomou posse sem pagar por ela. Mas deixa ficar. Só não venham pôr as mãos nas ancas com arrogância, pois só permito isso às mães de santo e aos que conhecem e tocam o samba:

Minha alma canta. Salve o Rio de Janeiro!



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