Se ter ideia é importante, imagine não ter nenhuma

 
Eu queria mesmo era escrever algo maior, mas agora não tenho nada em mente. Penso e penso e nada me vem em primeira mão. É bom que me venha logo, pois só tenho duas. Levanto-me e vou tomar um como d’água. Me lembro de um filosofo da Grécia antiga em que dizia que tudo era água. Volto para a cadeira que já deve estar cansada de mim, todos os dias aqui, meus Deus do céu. Para dar descanso a ela, de quando em quando vou para outra cadeira esponjada, daí a outra fica com ciúmes se eu fico muito tempo nessa. Me sento em frente à janela, mas ainda não me vem nada na mente. Nessa busca de uma ideia para escrever, me lembro do niilismo que diz que tudo é “nada”. Para a física é um vácuo, que para o indivíduo, esse vácuo é uma angustia existencial. Um café seria bom agora.
 
Olho lá fora e vejo a jurema. E os teus galhos balançam para lá e cá. Não vejo o vento, mas percebo indiretamente pela felicidade dos galhos da jurema. Outro filosofo antigo disse que tudo é “ar”. Ahh!… Tão bom amar. Estou me distraindo, é melhor eu pensar na ideia para escrever essa página. O céu sempre com o seu azul tão belo que chega a ser chato. As nuvens que pelo desencontro se encontram por causa do vento. Talvez seja o vento que leva e traz a felicidade, porque em justa medida de vento, a jurema se alegra, e sem o vento ela chora, e uma ventania ela cai. Isso tem alguma coisa haver com a felicidade, desconfio.
 
Nessa busca louca pela ideia, vejo lá fora uma galinha ciscando no terreiro. Ela deve estar procurando uma ideia também. A ideia de felicidade talvez. As melhores ideias devem estar nas profundezas do mar, e são como espinho de mandacaru. A galinha que estava ciscando, correu. Deve ter encontrado a sua felicidade. Sorte dela. Sorte de quem tem coragem de mergulhar no mar sem boia. Agora as galinhas vão se alegrar mais ainda, pois a minha mãe vai levar milho para elas. Será que milho traz felicidade? Não sei muito bem, mas do milho se faz a divina pamonha e cuscuz. Não desejo uma felicidade mais cara do que o cuscuz.
 
Comecei a escutar uma música para ver se me surge uma ideia que possa ser escrita. Uma música calma, lenta, como um beijo apaixonado debaixo das estrelas. Uma mosca me perturba nesse momento. Eu espanto-a, mas ela continua, talvez ela esteja protestando contra mim. Fico feliz por ela, pelo menos ela deve ter alguma ideia racional para isso, enquanto eu ainda não sei o que escrever aqui.
 
O sol está se pondo. O engraçado é que ele não é galinha. Desejaria ser o vento para ser a vida do mundo, mas sou uma vida no mundo. É assim mesmo, um dia é cuscuz outro dia é bolo de milho. O que importa é a ideia. Talvez a ideia era não ter tido essa ideia louca de ir buscar uma ideia para escrever. Mas alguma coisa dentro deste pingo de gente, canta todos os dias feito um corrupião. E só vem cantar na hora do cochilo da tarde. Só um minuto, volto já….
 
Um minuto depois… Pilim, me veio uma ideia: colocar ração para o gato que ele está quase protestando também. Fim.
(15/04/2021- Icaro R. Silva)

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