Rezam os ‘Famigerados’ de Olhos Fechados

Essa é mais uma história inspirada numa parábola conhecida. É que gosto dessas parábolas, parecem eternas. Servem forever. E a razão disso é que se imortalizam com nossos erros.

Contarei do meu jeito, como sempre.

Havia uma ilha muito bonita, que pertencia a um país tropical, grande, pródigo, com matas e minas. Um país abençoado e bonito por natureza divina.

Os moradores da ilha, conhecidos como ‘famigerados (não pensem que é pejorativo, procurem no dicionário) eram simplórios, humildes e pareciam, se não felizes, pelo menos ‘não-tristes’ com o que tinham.

Vez em quando, quando em vez, ilustres figuras apareciam. Vinham com seus iates e lanchas, vinham em busca de votos, moedas, vinham para arranjar seguidores e fiéis discípulos.

Os famigerados os acolhiam generosamente, sem desconfiança, sem retórica agressiva, qualidades inerentes à um povo que infelicidade não tinha.

Além disso, era uma novidade, servia também de diversão na ilha.

As visitas foram ficando cada vez mais constantes. Os visitantes até instalaram uma bela casa por lá. Casa bela, chique, e que até ar condicionado tinha. Quando o sol castigava a ilha com seu longo verão tropical e o mar parado não trazia sequer uma brisa, lá iam os famigerados se refugiar no ar condicionado. Aos poucos aquilo foi virando programa de sábado e domingo. Lá vestiam suas melhores roupas para aproveitar o ar gelado, ouvir música e ver aquele ser encenando no palco.

Só que, sem perceberem, no entanto, de tanto lá frequentarem, os famigerados foram mudando seus hábitos, seduzidos pelo ar condicionado. Nessa sedução, se entregavam ao prazer e daí as palavras marteladas pelos visitantes foram virando sagradas.

Então, num belo dia, a natureza se revoltou com tamanha mudança de clima e chorou águas torrenciais por dias e dias, semanas seguidas, inundando o que já era por si só uma ilha.

Não tendo para onde escapar, a população se agarrou àquilo que tanto lhes disseram e, cegamente, punhos cerrados, rezaram, e rezaram, e….rezaram. Mas ali, não se sabia quem era o ovo, quem era a galinha, pois não se sabia quem venceria primeiro, a fé ou a água que subia

De repente, barcos surgiram no horizonte. vinham com uma tripulação de estudiosos, sábios, sociólogos e técnicos bem formados. Conseguiram atravessar as perigosas ondas gigantes em seus capacitados barcos e vinham para oferecer ajuda. Vinham munidos de cordas e balsas construídas com madeira de lei, pois só essa servia, tudo cientifica e milimetricamente calculado para não afundar.

Acenaram e sinalizaram aos moradores da ilha, mas…

– Podem voltar!! Estamos muito bem, obrigado! Não nos desviem de nossa fé! Só Deus nos salvará! – e os famigerados viraram as costas e voltaram a rezar. E mentalmente ouviam as palavras do mestre…

 Tenham fé! Não desistam! Alcancem o paraíso! Se saírem nunca mais o terão! Por isso não fujam, nem olhem para os lados. Aguentem firmes, não sejam maricas! Aguentem!

E após mais algumas horas, morreram todos…afogados

Os espíritos dos famigerados, perdidos entre a ilha e as nuvens, se entreolharam e viram que foram enganados. A ilha simplesmente acabou. E eles, famigerados, já nem corpo tinham para curtir o prazer de estar no ar condicionado.

– MAS ENTÃO, DEUS!! ONDE ESTÁ VOCÊ! O SENHOR NOS ENGANOU!

E uma voz ecoou vibrando no universo e entrou não só na mente mas no coração daqueles espíritos perdidos e confusos:

– ENVIEI OS MELHORES EXEMPLARES DA MINHA CRIAÇÃO, OS MEUS MAIS CAPACITADOS FILHOS, OS MEUS MAIS SENSÍVEIS GUERREIROS NA LUTA PELA JUSTIÇA SOCIAL, PELA PROTEÇÃO DOS MAIS FRACOS E DA MINORIA. ELES SE SACRIFICARAM CONTRA O MAL QUE OS AMEAÇAVA E OS PERSEGUIA, MAS CONSEGUIRAM IMPOR LEIS PELA JUSTIÇA, ESCREVERAM LIVROS, ACONSELHARAM, MOSTRARAM FATOS, A REALIDADE E A HISTÓRIA.

QUANDO VIRAM VOCÊS EM APUROS FORAM PESSOALMENTE OS SALVAR…

E ONDE VOCÊS ESTAVAM COM A CABEÇA PARA RECUSAR? COMO ESPERAVAM QUE EU LHES AJUDASSE NUM MUNDO QUE NÃO FOI POR MIM CRIADO? EU SÓ FIZ VOCÊS E O CENÁRIO.

DEVERIAM ENCONTRAR EM SI PRÓPRIOS, À MINHA SEMELHANÇA, SEUS PRÓPRIOS MEIOS.

ADQUIRIR CONHECIMENTO, CIÊNCIA, CULTURA…E O CORAÇÃO AQUECIDO PARA SE OCUPAR DE QUEM PRECISA. SENTIR QUE É NOS FATOS, NOS RESULTADOS QUE A VERDADE SE ENCONTRA, LOGO, É JUSTAMENTE ALI QUE EU ME MANIFESTO E EXISTO.

VOCÊS SEQUER VIRAM, TÃO CEGO ESTAVAM…O NOME DO BARCO:

“CONSTITUIÇÃO”.

DEVERIAM TER NAVEGADO NELE

QUE NÃO ESTAVA ALI POR ACASO…



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