Pensando e passeando pelo rio

Pensando e passeando pelo rio

Eram um dia normal como os outros. Um dia que ninguém poderia esperar algo de diferente. É um dia que tanto pode ser de guerra ou de paz. Um dia que estava aparentemente em calmaria, mas não estava. As arvores dançavam com a valsa do vento do verão, felizes da vida. Que sorte delas. O vento que fazia as aguas viajar de longe, quilômetros e quilômetros de interiores adentram, passando por estradas pisadas, com marcas de chinelos, marcas de suor pingado, estradas que de tantas vezes são desproporcionais as expectativas humanas, e quem pondera tudo isso, entre estradas e expectativas existe o suor chorado no chão, misturado com a lama que desce para o rio, rio que, desairosamente estoura as próprias margens e, não se sabe onde seria o seu fim, sem que chegasse o próprio fim de tudo, do rio, da vida. Talvez, no mar quem sabe, seria o seu fim, ou, secaria com o calor do sertão.

Foi pensando e passeando pelo rio, e, observando esse rio que ele sorri por alguns milésimos da sua existência. O porquê, não se sabe. Foi olhando o peixe subir contrariamente a agua que desce. Quem pode fazer juízo dos peixes que nadam para a felicidade pelos contrários que dos quais para o humano se julga como, os falta de juízos.

O dia amanheceu contente e quente. O aroma do café já tinha passeado por toda a casa, saindo diretamente da chaleira, da cozinha, passado pela sala e saindo na porta da frente, retornando pelos quartos. Foi quando que ao passear por um deles, tinha alguém dormindo que, inconscientemente ao sentir o cheiro do café, tornou-se consciente e não resistindo aquele sabor que de tanto viajou pelos séculos e estradas, o fez acordar. O difícil nem sempre é acordar, mas levantar. Quando ele acordou e colocou já começou a pensar, pensou em tanta coisa que se esqueceu em pouco tempo de pensar na coragem, naquela que faz o ser humano levantar, colocar a sua armadura, pegar a espada e ir para a guerra. Assim é a vida. Sorte de quem se acorda e de bem se levanta.

Nesse acordar ele olhou para as telhas e lembrou-se de quando era criança. De muito a gente se esquece nessa ideia de ser grande. Ele tentou lembrar-se do que ainda não tinha esquecido dessas coisas que guardamos na caixinha da memoria e sempre nos voltamos para lá quando queremos ou sonhamos reviver um momento do tempo passado.

É estranho para qualquer um. Sempre pensamos em voltar ao passado quando queremos fugir de algo do presente, ou não queremos enfrentar esse tempo futuro que precisa de tantos e tantos verbos. Tampouco sabemos o que dizer dele. Quem souber suspeito, pois, se fosse para sabermos de modo perfeitinho como se pensa, qual sentido teria esse amanha obscuro?

Resolveu levantar-se para a guerra da realidade, depois de já ter guerreado consigo mesmo em pensamento. E o dia apenas começara. Com os olhos abertos para esse ato de se levantar, ficou indeciso entre qual o pé que colocaria primeiro na chinela, pensando se se colocasse primeiro na esquerda poderia dar mais sorte que a direita. Mas, sem pensar tanto, senão que, isso era uma ilusão de crer que acordar e passear com o pé direito ou esquerdo o traria mais sorte. Sorte para o dia, para a vida, ou porque já seria uma sorte em ter um café pronto?

Calçou-se e partiu na aventura desmedia de viver o dia. De passo em passo, sem contar os passou, foi ao banheiro. Abriu a porta, entrou e trancou a porta. De frente para o espelho perguntou quem ele era. Realmente, quem sou eu? É uma questão tão profunda que não se encontra dentro das dimensões do pensar humano. Não fundo a ponto de chagar aos céus ou ao inferno. Às vezes podemos até dizer quem nós somos, mas isso só é valido enquanto se diz, pois, entre o começo e o fim de uma frase, não seremos os mesmos.

Olhando-se no espelho e reparando naquela face, uma face que se acompanhada de pouco em quando pelas rugas que, ou são rugas de riso ou da idade. Em movimento, pegou a pasta de dente para escovar as palavras para o dia. Feito, lavou-se e destrancando a porta se saiu do banheiro. Foi em direção ao quarto. Abriu o velho guarda-roupa de madeira imprensada, de feito apressado, mudou a vestimenta para ir embebeda-se do café.

Passando pela a sala, as cadeiras pareciam normais, a mesa estava normal como as suas pernas. Diferente da vida, é como aquele remédio que por alguns são conhecidos, o quebra-pedra, mas que aqui é a quebra perna, a vida. Quando parece está tudo bem pintado num quadro, e por vezes está, outras só parece mesmo, há sempre alguém que olhe diretamente no fiapo solto da tela. Assim chegando na cozinha, estava o seu pai e, ofertando-lhe um bom dia em troca de um tanto de café amargo, como a vida em certos momentos.

Tirou um pano que cobria a garrafa, feito de crochê, pois essa arte que de muito manjava era a sua mãe, e, desmembrando a tampa da garage, desenroscando a roda da vida, derramou o café a xicara com gosto que, parece que já estava tomando o café só em paquera-lo. Feito isso, veio o retrocesso, digo, girou a roda da vida, num só giro tampou a garrafa que guardava o amargo e a água da vida.

Com a sua xicara na mão esquerda, de passo em passo, um de cada vez e sempre, foi para o alpendre da casa, a parte da frente, a frente que por vezes é implícito ou explicito do bem vindo, do bom dia, as tais primeiras impressões, sendo que, há impressoras que não funcionam muito bem para certos ambientes, certos humanos pois, de um modo ou de outro é preciso ter uma voltagem, uma harmonia que faz os humanos se conectarem e, dessas conexões geram o nascimento das impressões que se fica e as que se vão, fora as que nem vieram.

Chegando ele na porta para a saída, a porta que, por conta de vermos o que há lá e cá, desenvolve uma confusão se vai ou fica, pois, antes só se sabia o que tinha cá, mas chegando na porta, é ficar em cima de um muro. Ou surge pensamentos cautelosos e reflexivos do que se quer para a vida, pois, a questão não é querer algo para ela, mas se as escolhas que estão sendo feitas irão de encontro a esse algo que para ela queremos. Assim sendo, do lado esquerdo do qual ele estava, ainda em cima do muro, no alpendre haveria quatro boas cadeiras de balanço, do seu lado direito haveria três de balanço, se balançam sempre para frente e de vez quando para trás, quando se quer rememorar historias, como as de infância. E outras duas que não se balançam para paragem alguma. Estas ultimas cadeiras só existem. Quem não se balança para algum canto, morre no canto. Ele escolheu o lado esquerdo. Foi em direção a ultima cadeira de balanço. Sentou-se. Pensou-se como o seu majestoso café.

Tinha uma vista rica de natureza. Como era cedo, entre seis da manha, o sol ainda pouco se apresentava para o seminário da cena do dia. O céu estava um azul escuro, como as aguas escuras do mar. Poucas nuvens apareciam no momento. Um vento que tocava a valsa e as arvores dançavam. A frente havia uma grande arvore bem conhecida como ninho. Para o lado continha algumas plantas como, alecrim, capim santo, mangueira, limoeiro, etc. A frente da arvore, ninho, estava plantado uma cerca de arame farpado, uma das perigosas, pois, além de dividir a humanidade, ela corta sem que precise transgredi-la, só em pensar em nos fura de tal modo que, a ferida que acompanha a maquina do tempo, desde os primórdios quando os Neandertais quiseram dividir as terras, e desenvolver alguns conceitos em linguagem.

Tal cerca essa que abraça toda a casa, em prol de uma segurança aparente que, pode alguém pisotear caminhando, correndo ou nos espinhaço de um cavalo que, não fugira de si mesmo, humano. Não há cerca que segure a natureza humana quando se quer amar alguém. Doravante, havia uma cancela que cortava a cerca. Dessa cancela saia-se para uma pista, ou, uma estrada estadual asfaltada. Uma estrada que correndo tanto para a esquerda quanto para a direita, se chega ao Dragão do Mar em Fortaleza, Padre Cicero, ou sei lá, Itabira ou paris. Depende de para onde você quer deixar rastro?

Pelo lado de dentro, do lado esquerdo da cancela, havia um espaço relativamente grande. Nele estava plantado pimentas de cheiro, umas espadas de São Jorge, um pé de ipê da flor amarela, pés de acerola, e outras plantas das quais não rememoro nesse tempo.

Ele tinha esse gosto particular de caminhar entre as plantas, as vezes pela manha, as vezes pela tardinha, quando o sol já prestes a passar o posto para a meritíssima Lua.

Tomando o ultimo gole do seu café amargo, brotou no seu pensamento um pensamento amargo e um tanto contrario do que é o normal. Pensou ele, tediado do conceito estreito do que é viver, desenvolveu uma armadura de papelão, junto com o seu cavalo magro que se contava as costelas, uma cuia de agua gelada do pote – potes de barro que nas épocas passadas funcionavam como uma geladeira artesanal, em que as rãs eram sócias e consumidoras ao mesmo tempo do produto armazenado no barro – e transpassar a cancela e ir para a cidade cavalgando na pista, na aventura de encontrar se realmente habita neste mundo uma perfeita e certa pista do que seria viver sem temer…

Icaro R. Silva

https://icarorsilva.wixsite.com/icarorsilva



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