Oé algo banal. Pergunte qualquer pessoa na praça da cidade o que é pé e rapidamente, senão tiver mais palavras, apontará para as terminalidades dos seus membros inferiores. O pé, diriam elas, é tudo aquilo com o qual os seres vivos nascem, crescem, reproduzem-se e morrem. Reduzem o pé ao simples sentido biológico. Mas este, apesar de banal, é também sociologicamente interessante. É que o pé não é somente pé. Na verdade, ele diz muito da sociedade nas quais vivemos e das relações sociais nas quais nos configuramos. O ortopedista pode ver no pé uma oportunidade para o seu sustento viajando nos seus 26 ossos distribuídos em falanges, metatarsos e tarsos. A/O jovem do salão de beleza, a/o pedicurista, não só poderia ver nele uma oportunidade para o seu ofício mas também pensaria nas suas estéticas, imersos nos seus padrões mediaticamente massificados dos tais padrões do belo, do obrigatório e do sustento. A/O pedicurista pensaria, enfim, nas cutículas e da sua vontade de amolecê-las, pensaria nas suas espátulas e alicates como ferramentas do seu trabalho tudo por causa de um aparentemente simples pé. Mas o “proprietário” ou “proprietária” do pé encaram este de diferentes formas, de acordo com a sua classe e com o contexto no qual estão inseridos. Esta diferenciação de perspectivas acabam dando sentido cada pensamento e apreciação que se tem do simples, por isso, complexo pé. Do ortopedista ao pedicurista e deste para qualquer outro tipo de sociológico, o trainer da academia, por exemplo, o pé deixa de ser apenas biológico. Por isso para os sociólogos, portanto, para nós, ele é complexo. É que o pé também é uma oportunidade para fazer com que os sociólogos trabalhem. Alguns, principalmente os de orientação marxista, conseguiriam ver o pé simplesmente enquanto inscrito num sapato. Seria este então que diria tudo da pessoa “proprietária” do pé e das relações sociais nas quais ela se insere. O que estes sociólogos não conseguem notar é que mesmo que o pé esteja fora de um sapato, mesmo que não esteja inscrito nele, ele é, também, sociológico. Reduzem tudo à desigualdade. Mas, de fato, este também é um aspecto interessante para a sociologia e o pé, este banal elemento do quotidiano, já nos permite, só por ele, independentemente de estar ou não inscrito num sapato, qualquer que seja este sapato, de marca ou com caraterísticas da mendicidade paupérrima das cidades, já nos mostraria de imediato as desigualdades nas ruas. O pé, calçado ou descalçado, é demasiado sociológico. Até mesmo na perspectiva da desigualdade, o pé de uma elite senhora de uma região metropolitana de Fortaleza ou de São Paulo, por exemplo, está, em termos de cuidados e de tudo, a seis mil pés acima do pé de uma humilde senhora lá na serra, lá na roça, lá no sertão, lá no meio do sol quente e da terra avermelhada. A primeira tem recursos, financeiros e de tempo, de cuidar dos pés à luz dos modernos processos “pedicurísticos” dos salões de beleza. A outra tem o arado e uma terra por desbravar com pouca manobra de escape para dar alguma beleza aos seus pés e ao seu nível. Mas a distinção em termos da desigualdade que tanto comove, e compreende-se, os sociólogos marxistas não só se pode ver em termos assim tão extremos. Um intelectual, por mais que lute em nome da classe trabalhadora, não deixa de ser, só por isso, uma elite privilegiada enquanto não pegar em foices e martelos mas em canetas, blocos de notas e computadores. Os seus pés logo revelariam uma distinção evidentemente desigual. Tão leves e tão macios pouco se aproximariam ao trabalhador de foices, martelos, arados e tudo. Com isso não quero dizer que prestar atenção na desigualdade não seria um ofício sociológico necessário. Quero apenas dizer que é preciso que procuremos captar a complexidade do mundo social. Que é complexo, tal como um simples Pé. E captar esta complexidade, independentemente dos valores morais com os nos simpatizamos, é a tarefa de um sociólogo. Aí está! Mesmo este tem um pé diferente que trabalha duro nas obras. 


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Sociólogo, escritor, Membro da Associação Moçambicana de Sociologia e Mestrando em Estudos Interdisciplinares em Humanidade na UNILAB.

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