Olá, eu sou C. e tenho uma pergunta a fazer

A escola é chata. Especialmente aqui no Brasil. Mas a cadeia é humilhante e desumana. Especialmente aqui no Brasil.  Você pode concordar ou discordar, mas contra fatos não há argumentos. Se está se perguntando qual a relação entre escolas e cadeias, venha comigo que lhe mostro em detalhes!

Rio de Janeiro, 1991. Foi onde e quando fui à escola pela primeira vez. Que lugar assustador e sombrio, com pessoas estranhas e recheado de coisas esquisitas! Chorei por duas semanas. Depois, comecei a me adaptar. Sendo a princesa da casa, não era fácil ser mais uma numa turma de 25 crianças ou fazer o que a professora pedia no mesmo instante em que pedia.

Eu tinha coisas mais importantes para fazer e pensar. Como o plano de fuga daquele lugar sem janelas – eram gradis de cimento no lugar das janelas e portas de madeira com ferrolhos de ferro presos com um cadeado dourado. E as cores do lugar me davam medo: um branco sujo e um azul morte, com iluminação de filme de terror. Tinha até o corredor escuro com as lâmpadas de luz branca piscando, indicando que iriam queimar a qualquer minuto. Parecia cenário de filme baseado num dos livros do Stephen King. Pois é, foi uma experiência pavorosa.

Mal sabia eu que seis anos letivos depois, decidiria me tornar professora, não para descontar minha experiência nos alunos, não para ficar rica, e certamente não por causa da novela Carrossel. Eu descobri que professores têm o superpoder de ajudarem a mudar o mundo, e, bom, mudar o mundo era algo que me interessava bastante. Também descobri que ser professora era ser paga para fazer aquilo que mais gosto: estudar.

Mas, sabe o que me fez resolver mudar o mundo, de verdade? Uma conversa que tive com minha ex-professora de História dois anos antes, D. Marinete. Excelente professora! A Prefeitura, através da Secretaria Municipal de Educação,  havia mudado novamente os critérios de avaliação e a média mínima para aprovação era 4, de 0 a 10, mas, com 3,5 era possível conseguir aprovação. Eu a questionei o seguinte: se com 4 sou aprovada direto, e com 3,5 eu consigo também ser aprovada, de que forma eu poderei fazer um vestibular para a UFRJ, cuja nota mínima é 7 para apenas constar na lista de aprovados?

Pois, na época não havia ENEM e, só para figurar na lista de aprovados era preciso um 7, mas só quem levava a vaga eram aqueles mais próximos da nota 10. E só quem conseguia tal nota, via de regra, era quem estudava a vida toda nas melhores escolas particulares que o dinheiro pudesse pagar ou nos colégios de aplicação mantidos por duas universidades públicas super respeitadas: UERJ e UFRJ, no Colégio Militar ou no Colégio Imperial Pedro II. Não era para todo mundo, sabe? E não havia faculdade com Educação à Distância como hoje, a que dispunha e não era muito divulgada, era a da UnB. Eu era mais uma estudante mediana numa escola municipal.

E ela, com rara honestidade, me respondeu com a seguinte pergunta: e quem foi que te disse que querem que você vá para a UFRJ? Quem disse que querem que você seja aprovada numa universidade pública federal? Foi nessa época que aprendi sobre quanto é corrosiva a política neoliberal enquanto política pública. Meu interesse por política só aumentou – já não era novo ou pequeno – e fiquei sabendo de coisas que eu nunca havia sonhado.

A primeira delas foi que não é possível um único servo obedecer fielmente a dois mestres ao mesmo tempo, isto é, se a orientação é neoliberal, ela é voltada para os interesses das grandes corporações e das elites, e os interesses desses grupos dificilmente têm algum ponto em comum com o do verdureiro da esquina, do varredor de rua ou do motorista de ônibus e menos ainda com os seus e os meus.

O neoliberalismo muda a forma de falar as coisas para parecerem mais aceitáveis e que cause menos revolta popular. No lugar de dizer que vai focar em salvar bancos e grandes empresas às nossas custas, diz que o foco é fazer um esforço concentrado para nos tirar do aperto financeiro. E assim, pensamos que estamos inclusos no pacote. Como somos ingênuos, não é mesmo!

No lugar de dizer que há desemprego e fome e que isso não causa qualquer problema aos propósitos neoliberais, libera-se o uso indiscriminado de registros de microempresas, o qual, devo acrescentar, foi feito com outro propósito muito mais nobre em mente,  e força as pessoas a aderirem e diz para os jornais que o que há de verdade são microempreendedores adeptos ao jejum intermitente, usando diferentes protocolos,  em busca de oportunidades e desafios. Parece até que você teve opção, não é?

Aprendi quem foi Darcy Ribeiro e que ele sempre teve razão: desmontar aquilo que é bom e dá bons resultados é um projeto de sucateamente progressivo, para na hora de desfazer daquele equipamento, as pessoas não achem ruim. Foi assim com a Vale do Rio Doce, foi assim com a Telebrás, foi assim com a CSN, e foi assim com tantas outras.

Resultado prático: reze ou ore todo santo dia para não haver guerra, pois não temos um único setor estratégico da economia sob tutela do Governo de modo a garantir a soberania nacional. As telecomunicações são essencialmente estrangeiras, as companhias de gás e energia elétrica também o são, a maior mineradora que se tinha foi vendida ao capital privado com participação estrangeira, bem como a maior companhia siderúrgica.  Não há uma única fábrica ativa de carros que seja nacional, repare só. Se iria citar a Gurgel, ela fechou há anos.

Pouco a pouco a qualidade de vida e da Educação oferecida foi sendo destruída, até o ponto em que estamos hoje. Há cerca de uns dez anos, um movimento silencioso foi sendo conduzido em todo o país e é muito grave: escolas públicas municipais e estaduais foram sendo fechadas, assim, sem mais nem menos. No campo e na cidade. Veja aqui os artigos 1, 2, 3, 4, 5, 6 , 7 e 8, para que entenda melhor.

Interessantemente, na mesma época, um negócio muito lucrativo, cujo modelo foi importado dos Estados Unidos,  começou a despontar: prisões particulares começaram a fazerem licitações para atender a demanda de abrigar pessoas detidas de média e baixa periculosidade, que é a maioria das pessoas que fazem parte da população carcerária brasileira. Assim, ganham um bocado de dinheiro para manterem os presos presos.

Com o fechamento de escolas, e sem a regulamentação do ensino domiciliar e todas as regras que deveriam acompanhá-lo devidamente implementadas, muitos jovens deixaram para sempre as salas de aula e qualquer perspectiva de alçarem vôos mais altos academicamente. Outros, com melhores condições financeiras, migraram para as escolas particulares, quando haviam em sua localidade.

Muitos foram trabalhar localmente, outros foram trabalhar em locais distantes de suas famílias, e tem uma parcela que viu-se sem muitas opções e acabou abraçando a vida criminosa. Onde vão parar mesmo os criminosos pegos pela polícia? Ah, é… bem lá, na cadeia alugada pelo Governo!

Há cinco ou seis anos, outro movimento iniciou-se, igualmente preocupante: o início da quebra de escolas particulares. E não estou falando apenas da Escolinha da Tia Maria, me refiro às escolas antigas, de renome também. E, nos últimos dois anos, tal movimento ganhou força e está ganhando ritmo e velocidade no presente momento. Para entender melhor, veja os artigos 1,2 e 3.

Isso preocupa, pois, as famílias que ainda tinham a opção de, na falta da escola pública, matricularem seus filhos na escola particular, agora não tem nem mesmo essa possibilidade. Mas, sabe o que realmente é impressionante? É que do Oiapoque ao Chuí, da Ponta dos Seixas a Punta del Leste, as escolas dizem que fecham pelas mesmas duas razões:  empobrecimento da população e excesso de violência no entorno.

Analisemos isso mais detidamente: o empobrecimento da população se dá por uma porção de razões. Uma delas é a desvalorização do dinheiro: em 1995 eu poderia ir no mercadinho do meu bairro e comprar duas bolsas cheias de biscoitos com apenas uma notinha de R$1. Hoje, com o mesmo valor, só consigo comprar uma pipoca doce no vendedor de rua, quando encontro nesse preço.

Outra coisa é precarização do valor e das condições de trabalho: condições ruins de trabalho geram mais estresse, que dá origem a diversos problemas de saúde física, mental e emocional. Que causa acidentes e erros, que causam transtornos e prejuízos sérios. E assim se gasta dinheiro com remédios, se perde dias de trabalho,  o que não aconteceria se a situação fosse diferente.

Recebendo menos dinheiro pelo mesmo trabalho, e com uma moeda desvalorizada, seu poder de compra vai pelo ralo, junto com sua saúde e bem-estar. A violência no entorno é consequência direta do processo de destruição da qualidade de vida e da Educação, pois nega qualquer perspectiva de melhoria nas condições de vida da pessoa em questão e sua família a médio e longo prazos. Entenda melhor lendo os artigos 1,2 e 3.

O que não contam essas escolas é sua fatia de responsabilidade nesse processo: geralmente, são escolas com culturas perversas e/ou inadequadas; com excessos de gastos; com dificuldades de acompanharem as mudanças através dos tempos; que permitem que suas identidades sejam descaracterizadas ao sabor das menores adversidades, bom, a lista é longa. Ainda bem que existe solução para isso! Se por um acaso quiser saber sobre a solução que encontrei para tantos desafios, veja este artigo.

Ora, tendo em conta que hoje R$100 não compra mais tudo o que uma família precisa para comer por um mês, por qual motivo seria possível, com um salário mínimo de R$998, que uma família que tenha dois filhos em idade escolar, consiga manter ambos matriculados, bem alimentados, com todas as mensalidades em dia, material completo, uniforme certinho, considerando que uma mensalidade custe R$300 por estudante? Algo de errado não está certo nessa conta, não acha?

Considere em seus cálculos que a vida escolar é apenas uma fração da vida, logo, quanto não seria necessário que essa família desprendesse mensalmente  para diversão, lazer, roupas, e outras necessidades? E estou falando somente dos filhos, repare bem. E os pais? Não têm necessidades também? Imagina-se que sim, certo?

A solução oferecida pelo governo aos três movimentos, após mais de quinze anos de solicitações individuais de algumas famílias, muita controvérsia e batalhas nos tribunais, foi, recentemente, legalizar a opção do ensino domiciliar, entretanto, suas regras não foram completamente estabelecidas.

Uma das regras definidas foi que, assim com no Estado da Flórida, nos Estados Unidos, um plano pedagógico deve ser encaminhado juntamente com a solicitação de permissão da prática. Entretanto, a aberração contida nessa mesma regra é que tal plano deve ser elaborado pelos pais.

Trata-se de uma aberração por seis motivos:

  • abre caminho para a elitização do ensino domiciliar, conforme foi até 1950: quem pode pagar tutores terá aulas particulares em casa, que não pode, não terá;
  • aqueles que não puderem matricular seus filhos numa escola, ou puderem pagar tutores, deverão dar seu melhor ao ensinar suas próprias crianças, e, por experiência, sabe-se que pode ser insuficiente. Imagine os pais ensinando  que o sinônimo de marido e esposa é ‘conge’ e seu plural é ‘conges’. Luís de Camões e Fernando Pessoa provavelmente se revirarão em seus túmulos!;
  • a maioria dos pais e responsáveis não têm treinamento profissional para confeccionar tal documento: requer um curso inteiro de Magistério ou de Pedagogia para aprender a fazer esse e outros documentos de interesse didático;
  • dá margem à exploração do trabalho infanto-juvenil: será possível alegar que a criança ou adolescente não vai à escola por ser ensinado em casa, e, na prática, não acontecer nem um, nem o outro, apenas lhe é negado o direito ao estudo para ser mais um par de braços trabalhando para ajudar a sustentar a família;
  • dá abertura a um novo mercado a ser explorado: empresas privadas poderão passar a oferecer serviços de pacotes prontos de planos pedagógicos, entretanto, a experiência nos ensina que a beleza do ensino domiciliar se dá justamente na personalização, ajustar-se aos gostos, interesses e valores de cada família,
  • quem entender que a personalização é o caminho, provavelmente, deverá desprender uma pequena fortuna para encomendar planos pedagógicos, retornando ao primeiro item.

Particularmente, sou contra a legalização e prática do ensino domiciliar? Sinceramente, não. Mas tudo tem um jeito certo de ser feito. Certamente, esse é o modo menos correto possível a se desenvolver uma relação pedagógica tão íntima e delicada.

Se, enquanto Governo, permito que meus concidadãos decidam praticar ensino domiciliar, devo dar condições mínimas de capacitação para tal coisa: mostrar que modelos existem, incluindo os ecléticos, como cada um funciona, qual o mais ideal quando os responsáveis trabalham fora, qual o mais ideal quando apenas há um provedor, qual o melhor para quando se está com dois ou mais adultos desempregados ou que trabalhem a partir de casa.

Indicar literatura confiável para aprofundamento, oferecer capacitação técnica básica para a montagem do plano pedagógico personalizado, ensinar as diretrizes básicas de condução do(s)  modelo(s) escolhido(s) em casa, como transitar entre modelos sem perder-se no conteúdo. Como solucionar problemas didáticos, como usar a metodologia como escada para que o próprio adulto também se capacite e alce vôos mais altos acadêmica e profissionalmente. Isso é apenas o que há de mais básico em termos de capacitação.

Chamei tal relação de íntima e delicada pois, bem conduzida, fortalece e une as pessoas da família e da comunidade em diversos sentidos e formas. Quando conduzida da maneira que está sendo proposta, tende a terminar de afundar o barco. Me refiro à mesma família que foi ensinada por três décadas que estava tudo bem em deixar na escola toda a responsabilidade pela educação e instrução de seus pequenos sobrecarregando, assim,  a escola com todos os deveres da família.

Quando uma família adota tal modalidade de ensino, a linha entre pais, provedores e preceptores se torna muito mais tênue, e, as famílias são obrigadas mais uma vez a se posicionarem sobre como irão enfrentar tal desafio: como conduzirão essa relação? De modo leniente, isto é, a criança faz o que deseja pois é o principezinho da casa e está tudo bem ser um pequeno ser irritante, desrespeitoso e sem educação?, ou, de modo mais maduro, que ensina que respeito é o que nos diferencia dos outros animais da Criação e segue por essa linha em todas as oportunidades e ocasiões?

Naturalmente, há um milhão de formas de conduzir tal relação, a mais correta depende de cada família, seus valores, visões de mundo, credos, medos e inseguranças, bem como suas habilidades, capacidades e esperanças. Agora, com escolas fechando; a qualidade de vida destruída; seu dinheiro valendo cada vez menos, prisões brotando do chão e provavelmente tendo que educar e instruir seus próprios filhos, por favor, me diga nos comentários, na sua opinião, o que tem mais valor: uma escola ou duas unidades prisionais?

 



Estudante da vida e suas conexões, professora por ofício e vício, pesquisadora por necessidade, ajuda as pessoas a atingirem suas metas de modo personalizado, barato e sem justificativas usando a Educação como principal ferramenta.

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