O toque tão precioso

O toque tão precioso

Não existe nada maior do que a presença humana. À medida que o tempo foi passando, apesar de toda tecnologia, fomos nos distanciando cada vez mais uns dos outros. Nossas relações foram ficando robotizadas, tomadas pela facilidade de acesso às redes sociais. Embora o processo de globalização tenha diminuído a distância entre as pessoas, aumentou o sentimento da indiferença humana. É nesse contexto antagônico, entre o acesso fácil às informações e o afastamento crescente das relações pessoais presentes, que surge o toque tão precioso, a necessidade da presença humana. Absolutamente nada substitui o calor humano, hoje temos a videoconferência, possuímos recursos para visitar pessoas do outro lado do planeta, fazemos isso de forma instantânea e no conforto dos nossos lares, mas toda essa facilidade não substitui o sentimento da presença, o olhar vivo, a possibilidade do abraço. Na fala de Carl Gustav Jung, o encontro de duas personalidades assemelha-se ao contato de duas substâncias químicas: se alguma reação ocorre, ambas sofrem uma transformação. Essa transformação a que se refere Jung, é justamente a modificação que sofremos quando estamos na presença de alguém. Charles Chaplin, certa vez, também comentou o assunto dizendo o seguinte: cada pessoa que passa por nós não nos deixa só, deixa um pouco de si e leva um pouco de nós, essa é a prova de que não nos encontramos por um acaso. A falta da presença humana é tão grande atualmente, que quando presenciamos algum tipo de ajuda humanitária, como essa que está ocorrendo na Europa, com os refugiados da Ucrânia, nos emocionamos. Isso acontece por que, apesar de todo avanço que ocorreu desde o princípio da civilização moderna, ainda somos pessoas, guardamos em nós todos os arquétipos ligados à condição humana. É comum verificarmos hoje em dia, pessoas que, apesar de estarem juntas em determinados locais, se encontram separadas devido à tecnologia, ficam tão concentradas nos celulares, no mundo virtual, que nem sequer se notam. O tempo pode passar, a ciência pode se modernizar, aparelhos mais inovadores podem surgir, mas uma coisa é fato, nossa natureza é imutável. Aquela sensação que sentimos quando ajudamos alguém, mesmo que seja com pequenos gestos, como ceder um lugar no ônibus para um idoso ou uma mulher grávida, ou comprar um doce no semáforo, ou até mesmo parar o carro em uma faixa de pedestres, para que as pessoas possam atravessar, jamais vai nos abandonar, por que ela faz parte do toque tão precioso.

Lembranças, críticas e reflexões por Flávio L. Barbosa



Nascido em São Paulo – Capital, atualmente com 56 anos de idade, o autor é psicólogo clínico, tem especialização em tradução e interpretação da língua inglesa e também é formado em letras. Trabalhou durante anos como professor universitário e no momento atua como escritor. Começou sua carreira escrevendo livros técnicos científicos, mas atualmente se dedica a escrever contos voltados ao terror psicológico. Através de uma escrita irreverente e crítica, gosta de escrever a respeito de temas como; alienação, pensamento crítico e sociedade.

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