NIETZSCHE, POETA ESQUECIDO OU POETA DO ESQUECIMENTO?

“Nietzsche: Poeta Esquecido ou Poeta do Esquecimento?”.

Amigo leitor, trago aqui um trabalho de pesquisa para você apreciar e refletir.  Um poeta que zomba de todos os poetas: assim se dizia Friedrich W. Nietzsche (1844-1900), o alemão que sacudiu diversos aspectos limitantes da poesia e da filosofia. Seu pensamento ia além da expressão poética, atingindo por vezes a loucura, por meio do apagamento de todo um ideário metafísico que perpassa a poesia. Não se pode deixar de encontrar algumas características modernas em seus poemas, mas seria também injusto enquadrá-lo nessa linha de pensamento: Nietzsche vai muito além. É dele que surgem, ou ao menos surgem claramente, as primeiras fagulhas de pós-modernidade. Uma análise de seus poemas não pode ser meramente uma releitura à luz de alguma teoria literária, portanto. Precisa de um cuidado que envolve a leitura de suas obras filosóficas bem como de outros espaços da filosofia e mesmo da literatura, abertos antes e depois dele, que possam ajudar a compreender novos sentidos possíveis para seus textos. É só portando essas leituras que se pode fazer algum jus aos poemas de Nietzsche e deles fazer uma releitura tanto à maneira que o autor tentou dizer em seus textos filosóficos quanto à que o eu-lírico nietzschiano expôs nas poesias: seguindo primeiro a si mesmo fielmente para, só então, segui-lo.

A metodologia deste artigo é a discussão de revisão bibliográfica a partir de fontes como artigos e livros relacionados ao tema, além das obras de Nietzsche. Normalmente, discussões acerca de literatura, filosofia, poética e outras áreas podem ocorrer por meio de comentários e apontamentos entre os próprios textos expostos, resultando em uma pesquisa que elucide uma discussão e algum posicionamento em relação a uma temática, para que se possa chegar a um determinado ponto, não necessariamente conclusivo. Essa é a maneira, portanto, pela qual este escrito desenvolverá a análise dos poemas de Nietzsche. Para fins de foco deste trabalho, os poemas discutidos são todos da mesma coleção: “Scherz, List und Rache“: Vorspiel in deutschen Reimen (Brincadeira, astúcia de vingança: Prelúdio em rimas alemãs), que ao que se sabe é o mesmo nome de uma peça cômica de ópera criada por Max Bruch (1838-1920), contemporâneo de Nietzsche. Sabe-se que a coletânea de poesias é de 1882, enquanto a peça seria de 1858.

O trabalho se justifica pela discrepância entre escassez de material referente à interpretação dos poemas do filósofo e a riqueza desses poemas tanto na síntese que fazem de seu pensamento quanto na forma como eles desafiam formas de escrever poesia que já vinham desde há muito, i.e., que realizam ou tentam realizar uma ruptura com a moral que perpassa os poemas antes dos de Nietzsche, plantando assim o gérmen dessa mudança poética. Assim, a justificativa do artigo se reforça porque Nietzsche é frequentemente visto como alguém de pouco sucesso, de pouca qualidade no que diz respeito às artes que praticava, tese essa que aqui se tentará mostrar que não procede, pelo menos em relação aos poemas que escreveu.

Para que essa análise e discussão que aqui serão empreendidas não fiquem soltas, serão apresentados alguns estudos sobre o filósofo que se relacionarão, mais adiante, com as mesmas. Dessa forma, optou-se por dividir o artigo da seguinte maneira:

a) ‘Para interpretar Nietzsche’, item no qual serão apresentados esboços de algumas das considerações do autor, que nos guiarão na interpretação de seus poemas;

b) ‘O poeta e a zombaria’, no qual serão discutidas possíveis interpretações aos poemas escritos pelo filósofo. Nesse item, será tanto necessário recorrer ao que foi explicado no item anterior, expondo os motivos pelos quais se interpreta Nietzsche de uma forma e não de outra, quanto será necessário retomar motivos teóricos (de teoria da poesia, teoria da literatura, enfim) que já terão sido esboçados para essa interpretação.

Para Interpretar Nietzsche:

Nos agradecimentos de A Poetics of Postmodernism, Hutcheon (1988) começa o livro com as seguintes palavras: “Não há textos sem seus intertextos, foi o que nos ensinaram”. Não poderia ser diferente no caso de Nietzsche. Nascido em 1844, neto de pastores protestantes, teve interesse em seguir a profissão dos avós. (FEREZ; CHAUÍ, 1987). Isso mudou. Uma das críticas principais que desenvolveu em sua filosofia foi contra os pastores e os pregadores, i.e., não necessariamente pastores religiosos, mas qualquer um que sinta gosto por fazer seguidores. Nietzsche não queria ser seguido. Queria ser lido, interpretado, discutido, queria incomodar, se assim se pode dizer. É evidente que os poemas que escreveu—para repensarmos a frase de Hutcheon—tinham lá seus intertextos. Foram construídos principalmente em contato com o pensamento alemão de sua época (Goethe, Wagner, Schopenhauer, Hegel, embora este último tenha sido um pouco anterior aos demais) e de pensadores antigos. Seja refutando ou apreciando os escritos desses outros, importa saber que houve tal contato, tal troca e tal herança. O que interessa, portanto, a princípio, é: Nietzsche construiu seus poemas (e também suas teorias filosóficas) olhando para a sociedade em que vivia. Não escreveu, e.g., Medicamento para Pessimistas (Pessimisten-Arznei) à toa, por simples ato de inspiração; escreveu pensando no pessimismo que via em sua época e no apagamento da vontade de potência que esse pessimismo trazia, aproximando-se do cristianismo, ou melhor, de uma atitude por vezes ateísta mas tão resignada que chegava perto do martírio cristão, que era, para ele, a negação da própria potência, de qualquer atitude saudável no mundo. Seus textos, portanto, possuem fortes relações com seus poemas. Sendo assim, para começar a interpretar Nietzsche, cabe analisar o tipo de interpretação mais suficiente para abordar as obras dele, bem como algumas questões que perpassam os poemas.

Dado o fato de o eu-lírico nietzschiano colocar questões que Nietzsche levanta em aforismos em seus livros, pode-se perceber um entrelaçamento entre esses dois âmbitos de sua escrita. Ambos possuem algo em comum: são de uma afirmação pessoal muito própria de Nietzsche. Ele se coloca na poesia e se coloca nos aforismos. Isso parece trazer uma quebra com a noção de objetividade no texto filosófico, pois com os aforismos ele possui a liberdade para agir com um tipo de narrador nietzschiano, fazendo referências ao autor Nietzsche, agindo ainda dentro do que se reconhece como a ‘área da filosofia’, i.e., da discussão direta de ideias. Toda essa complexidade leva a crer que os poemas possam tanto ser lidos como peças soltas quanto compor um conjunto com a obra. Não deixa livre, no entanto, o pesquisador, de ter conhecimento de sua obra teórica, pois, como se disse aqui, em diversos momentos os dois textos se entrelaçam. Cabe aqui um exemplo desse jogo do narrador no seguinte aforismo:

“Mas deixemos o sr. Nietzsche de lado: que temos nós com o fato de o sr. Nietzsche haver recuperado a saúde?… Para um psicólogo, poucas questões são tão atraentes como a da relação entre filosofia e saúde, e, no caso de ele próprio ficar doente, levará toda a sua curiosidade científica para a doença. Pois, desde que se é uma pessoa, tem-se necessariamente a filosofia de sua pessoa […]” (NIETZSCHE, 2012).

Há aí uma forma mais metafórica e literária de dizer que um psicólogo (ele mesmo) tem como uma de suas questões mais atraentes a relação entre filosofia e saúde. Isso leva a repensar, no mínimo, o que se entende por filosofia e o que se entende por literatura. É o que se tem chamado, em poética, por ‘deslimite’. No deslimite, as fronteiras entre literatura e filosofia não são mais tão claras. Parecem não existir senão enquanto produto de uma lógica. Nesse sentido, também vale notar que a fragmentação constitui o pensamento de Nietzsche, bem como transborda para seus poemas, o que deve ser visto de perto no próximo item. Por agora, vale deixar a observação de Pereyr (2000):

“Mas foi Nietzsche, muito antes de Derrida, quem lançou o primeiro e mais demolidor dos ataques contra o logocentrismo no Assim falava Zaratustra, anuncia a morte de Deus; em Além do bem e do mal, entre outras obras, leva a efeito uma crítica contundente à filosofia ocidental e ao cristianismo. E dá o exemplo: escreve, ele mesmo, por fragmentos.

Com o que aqui já se discutiu é possível perceber a maneira como se constitui o viés interpretativo que este artigo imprime às discussões acerca da obra poética de Nietzsche:

a) abordagem pautada na noção de obra aberta, sem a imposição ou fixidez de conceitos que se pode perceber na metafísica, e

b) compreensão da poética nietzschiana como poética do deslimite.

Sendo assim, é necessário ir agora à discussão mais próxima das poesias de Nietzsche, tomando por base as perspectivas aqui dispostas.

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O Poeta e a Zombaria:

“[…] por exemplo, o punhado de canções que agora vêm juntadas a este livro – canções nas quais um poeta, de maneira dificilmente perdoável, zomba de todos os poetas.” (NIETZSCHE, 2012). Qual é a zombaria que esse poeta dos aforismos, esse poema das canções e dos poemas radicalmente conectados a sua filosofia, comete em relação a todos os poetas? A zombaria parece ter uma parcial explicação um pouco mais adiante, em: “Não, esse mau gosto, essa vontade de verdade, de “verdade a todo custo”, esse desvario adolescente no amor à verdade – nos aborrece.” (NIETZSCHE, 2012). A poesia de Nietzsche não tem o intuito de estabelecer um universo, de estabelecer normas, de fechar o leitor a ela mesma. É uma poesia da abertura. Não há vontade de verdade nela, nem ela se comporta como sistema. Ela se abre, simplesmente, à interpretação, e sabe que terá sua vida de fato no interpretar do Outro, e não nela mesma. É aqui que entra o primeiro poema a comentar, Interpretation (Interpretação):

“Ponho-me por mim, então ponho-me a fundo:
Eu não posso a mim mesmo ser intérprete.
Mas quem só seguir a seu próprio trilho,
Contribui também para levar minha imagem a mais clara luz” (NIETZSCHE, 2012).

A tradução de Paulo César de Souza, na edição brasileira, propõe no primeiro verso: “Se me explico, me implico.” (SOUZA, P., 2012). Essa tradução supõe, assim, que Nietzsche tenha dito que falar de si é entrar em si. Explicar-se é implicar-se, i.e., tentar abrir a si mesmo ou a uma obra que tenha escrito implica em entrar ainda mais naquilo que se tentou expor, nada sendo explicitado. Essa dificuldade de se explicar sem se implicar não fica tão clara na tradução para o inglês, de Luchte (2010), que propõe: “I lie away from myself as I lie in myself”. Lie, em inglês, carrega o sentido de ficar, residir, repousar em algum lugar, mas também carrega o sentido de ‘mentir’. Um liar é um mentiroso. Leg, em alemão, tem o mais comum sentido como ‘colocar’. Por conta disso, preferiu-se aqui ‘ponho-me por mim, então ponho-me a fundo’. Por isso “Eu não posso a mim mesmo ser intérprete.” (NIETZSCHE, 2012). É impossível interpretar a si mesmo, porque é impossível explicar-se.

Ora, um poeta que, ao tentar explicitar-se sabe que entra ainda mais em si, que se põe mais a fundo ainda, é condizente com o poeta que não tem a vontade de verdade a todo custo. Não há nada como “[…] respeitar mais o pudor com que a natureza se escondeu por trás de enigmas e de coloridas incertezas.” (NIETZSCHE, 2012). Já que explicar-se é tão difícil, como é que se pode explicar e dizer estar dotado da verdade, afinal, de um mundo tão complexo e, ao mesmo tempo, partindo de seu próprio mundo, no qual sempre se está implicado? Em O Arco e a Lira, Octavio Paz analisa o pensamento moderno científico e enxerga nele a objetividade (que, no caso, é uma das tentativas metafísicas de estar de acordo com ‘a verdade’) como imagem da consciência e como seu produto mais perfeito. (PAZ, 1982). Nietzsche já se distancia dessa forma de pensar, por não propor uma prisão à razão, à racionalidade, ou mesmo à consciência (espírito). Apoia-se não na unidade da consciência, mas justamente na fragmentação do sujeito e, de certa forma, em um afastamento da metafísica, o que o afasta, portanto, dos modernos, como se pode ver em Das Sprüchwort Spricht (O ditado/provérbio fala):

“Excitante e suave, grosseiro e fino,
Familiar e estranho, imundo e puro,
O encontro entre tolos e os sábios:
Isso tudo sou eu, quero eu ser,
Pomba simultaneamente, serpente e porco!” (NIETZSCHE, 2012).

Esse poema é o relato de uma fragmentação. Como definir ‘o sujeito’? Ou melhor: como definir ‘Nietzsche’? No autobiografar de seus textos, deixa transparecer um transbordamento de suas possibilidades enquanto poeta, enquanto imundo, e enquanto desejo de ser imundo, enquanto Nietzsche. Esse transparecer, que perpassa filosofia e poesia, é uma quebra de limites, quebra de paradigmas e limites propostos pela cultura: Nietzsche não separa a filosofia e a poesia. O próprio Zaratustra serve como grande exemplo disso, sendo difícil enquadrá-lo em ‘filosofia’ ou ‘literatura’. (GARCIA, 2014). Esse enquadramento é justamente um sufocamento das possibilidades da obra de Nietzsche e também de outros autores, como Fernando Pessoa, Graciliano Ramos, João Guimarães Rosa, Clarice Lispector, e tantos outros, consagrados ou não. A definição de um texto como ‘biográfico’, ‘filosófico’, ‘literário’ é, portanto, uma definição inventada e que sofre uma de-sedimentação com a poesia de Nietzsche.

O que foi acima exposto nos leva de volta à constatação autobiográfica, filosófica e poética de Nietzsche (2016): “Mas deixemos o sr. Nietzsche de lado: que temos nós com o fato de o sr. Nietzsche haver recuperado a saúde?… Para um psicólogo, poucas questões são tão atraentes como a da relação entre filosofia e saúde”. Essa fragmentação que Nietzsche diz ser, essa infinita possibilidade de ser o imundo e o puro ao mesmo tempo, de conter em si o contraditório sem ser dialético, é justamente a saúde, o vigor, a disposição à multiplicidade, e ocorre também, em suas obras, entre a poesia e a filosofia, como se pode constatar com a discussão anterior. A questão parece se aproximar do que Garcia (2014) diz do heterônimo pessoano António Mora: “[…] pensar para além dos limites erguidos ao longo da tradição metafísica. Escapar a esses limites seria uma forma de enxergar na vida algo de mais potente e singular: seria, com efeito, uma forma de saúde”. Essa forma de saúde se dá no heterônimo que é justamente um filósofo louco, restrito a um sanatório (GARCIA, 2014), e o autor pergunta então: “Entre a loucura e a razão, quem é o mestre e quem é o súdito?” (GARCIA, 2014). Nietzsche é o próprio ‘filósofo louco’, seja por questionar a razão e sua soberania em relação aos fatos do mundo, bem como questionar a verdade, tendendo ao irracional, seja por ter de fato sido considerado louco durante o último período de sua vida. Saúde é essa loucura de ser, como se vê no poema acima, “pomba simultaneamente, serpente e porco.” (NIETZSCHE, 2012). É não falar de forma literária, nem filosófica, nem autobiográfica mas, antes, de todas as formas juntas. É apenas falar, expressar uma vontade de potência, dominar as possibilidades do mundo, vontade essa que está dentro de si.

Da expressão que Nietzsche realiza nesse poema, nota-se também a zombaria que ele afirma fazer (vale lembrar: de maneira dificilmente perdoável) dos outros poetas. Ele não zomba por zombar do estilo ou da pessoa dos outros poetas, mas zomba do poeta que está preso à metafísica, que se crê poeta, mas está ainda restrito aos limites entre, por exemplo, poesia e vida. Essa zombaria é a zombaria de alguém que vê os poetas e filósofos a se debaterem em questões que não saíram dos espaços dos construtos, que se desenvolvem em terrenos já pré-concebidos e estruturas de pensamento delineadas. Sair do racional, do real, seria próximo ao intuito de Mallarmé, que acreditava que a poesia era a única linguagem capaz de suprimir por completo o real, i.e., o único campo no qual se poderia fugir totalmente disso, dessa instituição, a que se chama real. (FRIEDRICH, 1978). Nietzsche parece gozar de uma poética como goza da vida, questionando os limites entre esses dois espaços. A diferença de Nietzsche em relação a Mallarmé, nesse caso, é de não conferir nem mesmo à poesia alguma soberania. Fica, portanto, mais próximo a Rimbaud, que usava as imagens poéticas para desfazer os limites impostos pelas imagens da linguagem padrão/cotidiana (FRIEDRICH, 1978), com a vontade de romper com a poética então estabelecida, bem como com os padrões pressupostos no uso cotidiano da linguagem: “a vontade desta arte poética não é concluir, mas romper.” (FRIEDRICH, 1978). Há aí a mesma orientação da poética de Nietzsche.

Toda essa problemática vem da tentativa de abandonar as instituições morais do Ocidente: “A filosofia, como a compreendi e a vivi até agora, é vida voluntária no meio do gelo e nas altas montanhas – é a busca de tudo o que é estranho e duvidoso na existência, de tudo o que foi até agora proscrito pela moral.” (NIETZSCHE, 2006). O autor, portanto, compreende e vive a filosofia, e visto a dificuldade de separar seus textos filosóficos (por vezes cheios de metáforas e figuras de linguagem) de seus textos poéticos (não seria o aforismo um texto com qualidades poéticas, embora voltado a provocar pensamentos tidos como propriamente filosóficos?) pode-se dizer que não tem uma atitude de distinguir filosofia e poesia em uma linha apropriadora rígida. Ainda que o tentasse, não conseguiria, visto seus escritos estarem configurados desta forma. Filosofia e poesia têm aí, nesse sentido, um quê de ‘bem e mal’: Nietzsche está para além dessas instituições.

A transvaloração de todos os valores é, grosso modo, a alteração da carga dos valores para que possamos repensar o papel que os valores exercem no contexto em que estão institucionalizados. Nesse sentido é que Machado (2001) diz: “A noção de Deus foi, segundo Nietzsche, inventada como antítese da vida. Mas por quê? Porque Deus é pensado como a verdade”. É repensando o papel que exerce o ‘bem’ e o papel que exerce o divino na filosofia que Nietzsche supõe, portanto, que Deus (o deus cristão), no Ocidente, exerça essa função de antítese da vida. É a velha discussão entre apolíneo e dionisíaco no pensamento de Nietzsche. Apolo representa a ordem, enquanto Dioniso representa a extravagância, o exagero, a embriaguez. Nesse sentido, Deus representaria essa tentativa apolínea de se opor ao que de fato é a vida humana. Não há como metrificar e ordenar a vida. Os humanos são ora isso, ora aquilo. Essa efemeridade tem sua tentativa de controle no ato apolíneo de agarrar-se a um Deus, a um fundamento, uma unidade, uma verdade, propriamente. Vai nesse sentido a afirmação de Marton (1993): “Quando se trata de investigar onde os valores morais se acham fundamentados, observa-se que há mais de dois mil anos se enraízam no solo da metafísica e da religião”. Nesse sentido também vai o esquecimento: é o desaprender, o afastar-se dos códigos dados na cultura, esquecê-los. O esquecimento é a arma daquele que não quer mais se submeter ao niilismo do cristianismo ou mesmo ao niilismo pós-cristianismo:

“Se a ruína do cristianismo trouxe como consequência a sensação de que “nada tem sentido”, “tudo é em vão”, trata-se agora de mostrar que a visão cristã não é a única interpretação do mundo—é só mais uma. Perniciosa, ela inventou a vida depois da morte para justificar a existência; nefasta, fabricou o reino de Deus para legitimar avaliações humanas. […] É urgente, pois, suprimir o além e voltar-se par a terra; é premente entender que eterna é esta vida tal como a vivemos aqui e agora. Nisto consiste o projeto nietzschiano de transvaloração de todos os valores: fundar os valores a partir de outras bases […]” (Marton, 1993).

Assim é que vem, portanto, a interpretação do poema mais importante para esta parte da discussão, Zwiegespräch (Discurso):

“A. Estava eu doente?
Estou curado?
E quem foi meu médico?
Como esqueci de tudo isso!
B. Só agora creio eu que você se recuperou:
Porque saudável está quem esquece” (NIETZSCHE, 2010).

Recordemo-nos uma citação já feita aqui, que retoma a questão da saúde, visto que saudável está/é quem esquece: “Mas deixemos o sr. Nietzsche de lado: que temos nós com o fato de o sr. Nietzsche haver recuperado a saúde?… Para um psicólogo, poucas questões são tão atraentes como a da relação entre filosofia e saúde.” (NIETZSCHE, 2012). Qual o intuito, nesse sentido, do psicólogo que habita Nietzsche? Parece ser o intuito de esquecer, de deixar de lado justamente esse niilismo que corta a vontade de potência, que corta o desejo de viver, o ímpeto, a atitude. Só esquecendo esse construto prejudicial à humanidade é que há a possibilidade de voltar a estar saudável. A saúde, nesse sentido, parece estar ligada a um rompimento com os sentimentos de servidão, de culpa, de tristeza gerados pelo cristianismo; saúde é buscar alcançar uma superação de si mesmo pela eliminação de valores solidificados pelos construtos ocidentais ao longo de dois milênios. Isso tudo se pode perceber, como se vê, apenas pelo verso “Porque saudável está quem esquece”, e isso tudo está intimamente relacionado à filosofia de Nietzsche, denunciando aquilo que o mesmo sustenta em seus livros teóricos, bem como indo além disso tudo por estar disposto em forma de poesia e, portanto, por dar espaço à abertura de interpretação por parte do leitor.

O poema pode ser dividido em dois discursos: o de A e o de B, que parecem exercer o papel de personagens, sendo que A faz perguntas e B as responde, sem obter uma nova resposta de A. Analisando primeiro o que A diz, é possível notar que esta não se lembra de quem foi seu médico. Esqueceu-se, junto com tudo o mais. Note-se a expressão de indignação ‘tudo isso’ (alles das!): “Como esqueci de tudo isso!”. Essa expressão vem logo após a pergunta sobre quem foi o médico que o curou, e isso tudo ainda com uma dúvida que pode colocar tudo em jogo: “Estava eu doente?”, ou seja, A supõe que algum médico possa tê-lo ajudado, bem como pergunta se está curado, mas não sabe se de fato o que tinha era uma doença. O que ele sabe é apenas que esqueceu tudo isso. O esquecimento exerce o papel de divisor, portanto, para a pessoa de A. A doença de que sofreu apagou o que ocorreu antes e a curou. Seria possível supor aqui uma superação da metafísica, do cristianismo, dos valores construídos ao longo dos anos, i.e., da moral institucionalizada. Não que se possa, ou mesmo que haja qualquer vontade de exercer um papel hermenêutico e dizer ‘isto é isto e aquilo é aquilo’ em um poema, muito menos de Nietzsche, mas as suposições com base nas leituras e referências nas quais nos apoiamos neste artigo levam a crer na possibilidade de tais interpretações como a abertura de uma porta que permita pensar a poética de Nietzsche, a abertura de um rizoma como já dizia Deleuze, para que um dia se possa olhar para o mapa dos rizomas e notar como ele será modificado caso se entre por um ou outro ponto. (DELEUZE, 1986).

Vale notar que os momentos aos quais a poesia em questão se refere ao esquecimento (versos 3 e 5) formam a rima B, enquanto os momentos referentes à saúde (versos 1, 2 e 4) formam a rima A, de tal forma que: 1, 2 e 4 terminam em: genesen / gewesen / genesen (rima A). Já os versos 3 e 5 terminam em: alles das! / vergass (rima B). O único caso de toque de uma temática na outra é a palavra ‘saudável’ no verso 5, mas a mesma não desconfigura a ênfase da conclusão de B acerca de A estar saudável justamente por ser alguém que esquece. Essa divisão dos pontos do discurso em rimas é uma divisão de difícil tradução, e talvez por motivos como esse as duas obras (português e inglês)2 que consultamos com a mesma coletânea de poemas trazem os poemas originais em uma página e a tradução em outra.

Disso tudo se vê que Nietzsche como poeta traz um afastamento da tradição, uma ruptura, no sentido de romper com a maneira metafísica da filosofia de encarar um texto: as bordas do texto filosófico e do texto poético já não são tão claras quando se constrói textos tão distantes dos padrões metafísicos. É como se suas obras materializassem de fato a separação entre o pensamento sistemático e a desrazão como tentativa de afastamento de suposições logocêntricas. No entanto, vê-se também o uso de regras que já estavam dadas pela tradição, como o recurso às rimas A-B de maneira a-estrófica, o que boa parte das poesias tradicionais já o fazia (CHOCIAY, 1974), variando o tamanho dos versos. Sendo assim, a proposta de ruptura com esse pensamento metafísico é uma proposta que não tem medo de usar dos instrumentos que conhece, o que parece não trazer nenhum problema senão para quem tema o levantamento de suspeitas em relação às teorias, o que não parece saudável do ponto de vista acadêmico e do próprio ponto de vista de uma pretensa história das teorias. Essa proposta de Nietzsche usa desses aparatos e mostra, propositalmente ou não, como não estão distantes as formas de texto e como são solúveis os limites entre filosofia e literatura, o que pode muito bem servir de abertura para as teorias da desconstrução que surgem posteriormente. É também nesse sentido que se pode dizer que Nietzsche já tinha argumentos para temáticas que ainda hoje se discute seja na filosofia, seja na poética, seja na tênue relação fronteiriça entre essas duas áreas.

A proposta do esquecimento se afigura aqui mais como uma regressão, portanto, aos pressupostos. O mesmo texto que traz uma temática que preludia tão fortemente a desconstrução, traz também um set de rimas A-B organizadas e por sinal dentro da maneira como a tradição já vinha construindo essa forma de texto (poesia). Sendo assim, essa regressão do esquecimento é uma volta às bases, ao fundamento, uma volta que parece mais ter o intuito de mostrar: o fundamento é um construto como qualquer outro, porque a verdade pode residir nele, como pode ser vítima de um simples esquecimento. Essa verdade que o cristianismo prega pode bem ser apagada por uma reconfiguração disso a que se chama ‘razão’, e para isso não é preciso nem sequer lembrar o nome do médico que trouxe a cura. Estar curado é justamente: esquecer. É a inversão dos valores, deterioração de um construto que prejudica a humanidade por meio de uma invenção de um além que, quando cai, deixa apenas o niilismo. É muito difícil negar esses aspectos nas poesias de Nietzsche, e tudo indica serem esses os caminhos do esquecimento em seu pensamento.

Nilo Deyson Monteiro Pessanha



FILÓSOFO, ESCRITOR, POETA, COLUNISTA & PALESTRANTE. Fundador da Filosofia da imparcialidade participativa. Autor do livro de Filosofia Todos os Corações do mundo, e do Livro O Teatro da vida e a interpretação das coisas, quem nos garante ser verdade das coisas. Membro de diversas instituições culturais como por exemplo, é imortal acadêmico da Academia de Letras do Brasil seccional Campos dos Goytacazes, é imortal Acadêmico da Academia Pedralva Letras e Artes, ocupante da cadeira n°17 , Fundador do NAISLA, Núcleo Acadêmico Italiano di Scienze, Littere e Arti. Membro de diversas instituições. Nilo Deyson Monteiro participou de diversas antologias, periódicos e muitos de seus trabalhos acadêmicos estão no Google ao pesquisar Filósofo Nilo Deyson.

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