Minha leitura do filme “Coringa”

Assisti ao filme “Coringa” há poucos dias atrás.

Não sei se entendi todo o filme pra ser sincero. Na verdade, ainda estou meio confuso com o que eu vi.

Talvez precisasse de mais um pouco de tempo para tentar esclarecer para mim mesmo o que foi o filme.

E esse sentimento de certo desnorteamento se deve quase que exclusivamente ao trabalho impecável do ator Joaquin Phoenix.

Ele praticamente engole o filme inteiro. Toma o lugar dos outros protagonistas, do roteiro, do argumento, da própria história. Em certos momentos, diante de tanto talento, esquecemos até do que o filme trata, como começou e pra que final ele quer nos conduzir, afinal.

Mas de alguma forma, eu acho que é isso que o filme propõe; é para esse jogo permanentemente desafiador que ele nos convida a fazer parte: o conflito de sensações não é obstáculo, mas o meio. O desconforto é parte do método. O caminho para pensarmos as questões do filme não é aquele de quem as examina à uma distância fria e objetiva. É preciso que façamos isso junto ao problema, temos que ocupar como sujeito, o lugar do objeto.

A neutralidade é impossível. E também não é desejável. Essa é uma das teses do filme. Não há como termos uma distância pra entendermos as coisas.

Arthur Fleck tentou dizer isso: ninguém tentou se colocar no lugar dele. Ninguém, nem a sociedade, os poderosos, a mãe, a assistente social, os policiais que o casaram pelas ruas, seus colegas de trabalho, seus detratores, seus seguidores que o viam como herói.

Ninguém.

E o fato de Arthur só conseguir dizê-lo como Coringa (palhaço/comediante) deveria levar a uma maior reflexão.

Precisamos estar juntos pra entender. O entendimento (e o conhecimento) só pode vir da aproximação. A distância que leva a falta de compreensão leva ao desentendimento.

Só o que o mesmo mundo que teoricamente aboliu as distâncias, na prática intensificou o isolamento e a solidão. Muitos não conseguem assim se fazer ouvir. Não resta dúvida que a sociedade de consumo produz pessoas que estão mais aptas a se relacionar com produtos e objetos do que com as próprias pessoas. Daí surgem uma série de bloqueios e muros entre elas. O sentido da vida em sociedade tal como concebemos até uns 30 e 40 anos atrás não parece fazer mais sentido. Essa angústia é instintivamente questionada por Arthur: como se fazer ouvir (e ser reconhecido como pessoa) numa sociedade tão sem sentido como essa?

Pensar nessa questão não livra Arthur de se embrenhar nas contradições dessa mesma sociedade.

O grande acontecimento do filme, o assassinato dos três riquinhos no metrô foi motivado em seu momento inicial por um ato quase instintivo de legítima de defesa. Mas tanto a elite opressora quanto o povo oprimido viram nisso um ato político. O início de um movimento. O ensaio para uma revolução. O acerto de contas dos 99% contra a iniquidade do 1%.
Destaquemos desde já, que Arthur fica sabendo que os 3 eram ricos bem depois do ocorrido.

Mas voltemos ao triplo assassinato do metrô: embora motivado em seu início por um ato de legítima defesa (é importante sublinhar a expressão em seu início), todos sabemos que a terceira morte foi na verdade uma execução fria, um ato homicida desumano e brutal. “Ah, mas ele agiu sob forte emoção!”

Tenho certeza que o filme queria que muitas pessoas fizessem essa ponderação. Agora, cabe a nós ponderarmos sobre o absurdo que é tentarmos justificar um ato como aquele com esse tipo de argumento. Já sabemos onde isso está dando. Basta simplesmente que pensemos que esse é o argumento que mais legitima mundo afora a brutalidade policial contra as classes populares (principalmente negros e mulheres).

Lembremos apenas o que está a se passar no Brasil e nos EUA…
A verdade é uma só: Arthur fez justiça com as próprias mãos. E como toda ação desse tipo, foi um crime brutal.
Um detalhe ainda nesse evento que não pode passar desapercebido: muitos foram induzidos a ver ali no metrô uma intervenção do Arthur (que só por acaso estava sob o figurino de Coringa, cansado, voltando do trabalho) em defesa da menina assediada pelos três.

E mais uma vez temos de dizer: não! Não foi isso o que se passou naquele momento. Embora tivéssemos desejado vivamente que tivesse se passado.

Arthur ficou incomodado com o assédio, e involuntariamente começou a gargalhar, de forma descontrolada. Tentando a todo momento controlar o riso. Tentando a todo momento NÃO intervir, embora estivesse aparentemente, e só aparentemente, incomodado. E isso foi o bastante para desviar a atenção dos assediadores.

Agora, a questão que a própria história deixa em aberto: será que Arthur riu realmente por estar incomodado? Ou estaria se divertindo com tudo aquilo?

“Que absurdo pensar isso dele?” Será mesmo?

Ou esse é mais um jogo/desafio proposto por Arthur? O que ele estava pensando naquele momento? Do que ele estava rindo? E por quê?

Ou é o próprio roteirista tentando marcar o seu principal objetivo: era Arthur a principal farsa a ser desmascarada. E não o Coringa.

Pois é o próprio desenrolar da história que nos incita a revisitar algumas cenas do filme. (O filme também nos convida a uma pesquisa de seu próprio enredo).

Que homem solidário era esse com os infortúnios cotidianos das mulheres, que foi capaz de assassinar de maneira torpe ao menos 3 delas ao longo do filme: a mãe, a vizinha e a última assistente social a lhe atender?

Ao fim de tudo, flagramos Arthur atuando como um autêntico político: manipulando o próprio discurso sobre o seu personagem. Um Justiceiro. Mas claro, um justiceiro útil, com uma fachada altruísta, capaz de ocultar suas verdadeiras intenções. Os assassinatos por ele praticados não passaram disso: iniciativas com fins pessoais ou privados, sem nenhum objetivo político. Arthur é a aqui a alegoria do Miliciano.

O que mostra que até Arthur manipulava o próprio Coringa.

Nesse sentido, não o Coringa, mas o próprio Arthur é uma grande e autêntica farsa.

O Coringa não era mais do que a verdade, a ser manipulada. Como sempre.

Michael Moore defende que Coringa só chama a nossa atenção, para o bem e para o mal, para repeli-lo ou idolatrá-lo, pelo modo absolutamente banal e sádico como ele lida com a sua própria crueldade.

Acho que essa visão recai na armadilha ardilosamente preparada. Sim, o filme apela tarantinamente para algumas cenas de intensa brutalidade. Mas é preciso retomar o foco. E aí é preciso dizer que assistimos também ao desenvolvimento de um argumento quase impecável. Brutal ali é Arthur. Que manipula o personagem Coringa a todo momento.

O mais assustador em Arthur, a meu ver a hipótese central, é de que após vivenciarmos uma tragédia (os anos Reagan, com sua política repressiva, de grande arrocho contra os trabalhadores e de salto galopante da desigualdade), a sociedade vivencie uma relação permanente com a farsa.

A farsa que visa negar a própria tragédia, em certos momentos. Como exemplarmente ilustrado pelo trabalho da assistente social, a partir de um programa de assistência da prefeitura que na prática desassiste, que finge se interessar pelos problemas de seus cidadãos, cujo único mérito é disponibilizar mais e mais remédios (drogas) para o cidadão. Na verdade os cidadãos não passa para esse poder público de verdadeiro inválidos, a serem permanentemente dopados.

Em outros, a farsa que visa intensificar o trauma e a dor geradas pela tragédia: outro não é o papel de Thomas Wayne se lançar candidato, em defesa dos ricos, chamando a todos os pobres de “palhaços”, que não entendem nada, e ainda prometendo mais repressão e guerra contra a pobreza que se alastrava pela cidade? (Sim, é inevitável não lembrarmos de Trump e Bolsonaro aqui). O corte do programa de assistência da saúde mental é outro exemplo.

E é essa a sua principal denúncia ao final do filme, quando vai ao programa de humor de Murray (Robert De Niro).

Arthur queria ser um comediante, fracassou em seu intento por toda a vida. E quando percebe que o tardio reconhecimento é só mais uma oportunidade para que um comediante famoso o humilhe publicamente, decide fazer a denúncia em tom de revelação.

Denúncia anunciada já com sua escolha em ir ao programa como palhaço, e de ser anunciado como Joker (Coringa), não como Arthur Fleck.

Claro que tudo acaba soando bastante patético. Mas ele tinha que ser assim. O ambiente pedia. A crítica talvez perdesse força se buscasse ser mais sofisticada. A distância aqui só produziria esterilidade. E é isso que Artur queria a todo custo evitar.

E é no meio de sua fala de auto-piedade que ele lança uma pergunta, dirigindo-se à câmera, ou seja, para toda a sociedade: “não vivemos todos numa grande comédia?”

A meu ver, poderíamos ler a mensagem da seguinte forma: “Não contribuímos todos para essa grande farsa?”

Aí a meu ver está a ideia central do filme: a farsa não é apenas vivenciada por todos nós. De certa maneira contribuímos para ela se perenizar.

O Coringa como herói também é uma grande farsa. Ele também faz questão de afirmar.

Porque ao fim e ao cabo, queremos interpretar e classificar sem conhecer.

Condenamos ou heroicizamos a Arthur sem conhecer minimamente o que ele viveu, sem compreender nada de seus conflitos.

Ao final de tudo Arthur (ou será o Coringa?), nos mostra que ninguém está entendo nada. Nem à direita, nem à esquerda. E essa total falta de compreensão da tragédia que nos trouxe até aqui, sem dúvida, é um dos principais motivos da repetição permanente (e não uma vez apenas) da farsa que nos assola.

Estamos rindo de tudo, a todo momento. Rindo de nossas ações, discursos e escolhas políticas. Rindo de nossos inimigos, como se isso bastasse. Estamos rindo de nossa tragédia.

No fundo, é esse também o desconforto de Arthur, que vivia rindo, mas sabia o porquê. É como se ele quisesse dizer, “que sociedade louca é essa que não para de rir de sua própria catástrofe?”

“Onde está o sentido de tudo isso?”



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