Jornada do Herói: entrevista para um emprego e ações predatórias de empresas que não focam em pessoas

Matéria original: https://www.linkedin.com/pulse/jornada-do-her%25C3%25B3i-entrevista-para-um-emprego-e-a%25C3%25A7%25C3%25B5es-de-frank-toshioka/

Estas experiências práticas aconteceram de forma verídica em que a pessoa é citada em primeira pessoa e o nome da pessoa e da instituição foram omitidos. Tenham uma boa leitura!

No sábado, dia 26 de março de 2022, recebi um compartilhamento de uma oferta de uma vaga para professor com carga horária de 20 horas semanais de uma renomada instituição de ensino do Brasil. Os desafios e responsabilidades propostos foram: ministrar aulas conforme a metodologia de ensino superior, atuar em projetos em sinergia com a indústria e finalmente promover a prática com cases reais e também auxiliando em pesquisas. Uma informação que me chamou a atenção foi de que essa vaga também se destina a pessoas com deficiência (PCD) ou reabilitados (as).

O prazo de inscrição era de 25/03/2022 a 31/03/2022. O tempo era relativamente curto para decidir acerca da minha candidatura. Dois pontos a favor: o local de trabalho bem próximo de casa a menos de dois quilômetros da minha residência e também a oportunidade de exercer a docência e acima de tudo disseminar conhecimentos. Pontos contrários somente a questão do tempo que iria deixar de ficar com meus filhos no período noturno, mas que poderia ser compensando de outras formas e em outros horários. Resolvi encarar este desafio, mas teria um novo desafio: atualizar meu currículo. No mês anterior, eu já havia atualizado o mesmo com foco em uma vaga gerencial em minha empresa. Mas agora a vaga era para docência e, portanto, eu precisava adequar para esta nova vaga. Passei a parte da manhã do domingo atualizando o documento e às 20h46 eu submeti minha candidatura.

Após o período para candidatura encerrado, no mesmo dia 31 de março às 18h30, a recrutadora da empresa entrou em contato, solicitando alguns complementos, que caprichei muito bem nas respostas, pois se tratava de uma etapa eliminatória.

  1. Já trabalhou ou trabalha na instituição de ensino ou seus parceiros?
  2. Sua formação acadêmica atende aos requisitos acima? Comente
  3. Possui experiência com em alguma área da formação? Comente
  4. Possui experiência profissional com docência? Comente
  5. Possui disponibilidade para ministrar aulas presenciais de segunda à Sexta?
  6. Qual seu nível de Pacote Office?

Até então já havia passado por duas etapas, e a terceira aconteceu em 20 de abril com um novo contato da recrutadora perguntando do meu interesse em continuar com as próximas etapas e solicitando documentos comprobatórios de graduação e Mestrado e também agendamento para a próxima etapa com entrevista com o RH da empresa.

No dia seguinte comecei a assistir no You Tube a várias dicas de eventuais perguntas na entrevista e ao mesmo tempo já fui treinando com estas perguntas.

A quarta etapa ficou agendada de forma online para 22 de abril às 11horas. A primeira pergunta foi a tradicional de falar um pouco de mim. Enquanto eu estava falando, percebi que a ferramenta do Microsoft Teams da entrevistadora havia travado. Contatei na sequência a recrutadora, que perguntou se podíamos continuar a entrevista no zap mesmo.

As próximas perguntas, baseadas nos vídeos do You Tube, eu já havia ensaiado no dia anterior:

  • Quais são seus pontos positivos e negativos?
  • Conte um episódio que você encontrou uma dificuldade e como conseguiu resolver?
  • Cite um exemplo que você achou uma solução envolvendo um assunto multidisciplinar.

As duas últimas perguntas eu acabei usando da técnica da Jornada do herói, que basicamente você se coloca na posição de herói e o problema é o vilão.

  1. Conta-se a história de como é o mundo comum;
  2. O chamado ao herói do problema que ele pode resolver;
  3. Encontro com o mentor, que no caso podem ser estudos ou conhecimentos;
  4. A revelação da solução;
  5. Quais foram os obstáculos da sua jornada (exemplos tais como falir em um negócio anterior);
  6. Grande provação, ponto que você quase desistiu;
  7. Jornada do vencedor (você faliu, como você deu a volta por cima).

Vencida a quarta etapa, a quinta etapa seria um bate-papo presencial no dia 25 de abril com o gestor responsável pela vaga. Além disso, uma Banca que iria me avaliar ministrando uma aula de 15 minutos no tema Leis de Newton e podendo utilizar dos recursos de lousa e Power point. A apresentação eu havia preparado já na sexta-feira pós aprovação na quarta etapa. No domingo antes da entrevista dei mais algumas treinadas no conteúdo dos meus slides.

Para a quinta-feira, cheguei por volta das 16h15, uma hora antes da entrevista, tendo em vista que por pequena falha de comunicação no comunicado da instituição só constava a indicação do endereço do local e também o nome da pessoa que iria me entrevistar. Um local com uns 5 blocos diferentes poderia ser o motivador de um eventual atraso até achar o local da entrevista. Consegui achar o local às 16h30 e fiquei aguardando na sala de espera. Enquanto isso, aproveitei para ler alguns conteúdos de Mobilidade Elétrica que poderiam ser tema de eventuais perguntas da banca.

Às 17h15 em ponto me dirigi até o local da entrevista. Tensão no começo da apresentação, pois a Internet da instituição estava bastante lenta e não estava conseguindo acessar minha apresentação pelo meu e-mail. Após uns cinco longos minutos, finalmente consegui acessar pelo zap. Minha apresentação se estruturou em 1 slide de teoria e outro de exercício prático para cada uma das leis de Newton. Apresentei dentro dos 15 minutos estipulados e em resumo todos gostaram da proposta com atividades, pois os alunos são geralmente pessoas que trabalham durante o dia todo e estão cansados à noite, período dos cursos. Uma das pessoas na Banca só me deu o feedback que eu poderia usar a lousa.

Depois disso, eu me apresentei, contando novamente um pouco mais sobre minha vida pessoal. Os entrevistadores comentaram que muitas matérias ainda não têm conteúdo das matérias que serão ministradas. Perguntei sobre orientação nos TCC e mencionaram que pensam no futuro que haja orientadores.

Alguns pontos de atenções nas perguntas dos entrevistadores:

  • “Como você conseguirá conciliar as horas trabalhadas em outras empresa e mais 20 horas semanais na instituição e se existia algum impeditivo para se trabalhar à noite tendo em vista assuntos pessoas e particulares? ” – Aqui sem muito segredo, comentei que costumo não perder tanto tempo no trânsito de volta para casa, devido à minha flexibilidade de horário. À noite, consigo conciliar sem problemas estas 4 horas diárias. E finalmente, tenho um cotidiano bem puxado e já estou acostumado a acordar às 6 da manhã e dormir por volta da meia noite.
  • “Você consegue ministrar 5 matérias diferentes durante a semana” – Esta respondi através do meu próprio expertise, que sou especialista em vários assuntos diferentes. Mas que eu rebati com a seguinte pergunta: “A preparação das aulas está dentro da jornada diária de 4 horas? ”. E baseado nesta pergunta, eles responderam que eles remuneram com 12% a mais na hora aula para preparar aula em casa. Aqui cabe um ponto de reflexão: será mesmo que vale a pena se submeter a um trabalho exploratório e pouco remunerado? E também que reflete em outra reflexão: seu conhecimento está sendo bem remunerado? E a partir dos dois apontamentos anteriores: será mesmo que vale a pena eu perder 20 horas semanais fora as horas perdidas em casa para preparar aulas. Horas estas que eu poderia estar com meus filhos, ou mesmo escrevendo um artigo ou elaborando um novo projeto?  E vou mais além: será que vale a pena eu perder dois jogos de futebol que eu gosto e pratico na parte da noite para me submeter a este regime bastante exploratório e porque não dizer predatório?

É claro que quem perde é a instituição que com este ganha apenas da parte da instituição, deixa de ter um corpo docente um pouco mais qualificado. Em qualquer sistema, preza-se pelo ganha-ganha, eu particularmente não enxerguei nenhuma vantagem para me encaixar nesta vaga de professor. E eu avanço estas reflexões com uma nova pergunta dos entrevistadores:

  • Após eu mencionar meu histórico escolar, perguntas bem pontuadas, mas sempre o ganha da instituição: “Você estaria disposto a ministrar aulas de tecnologia e inovação? ” Tecnologia eu desenvolvi durante meu Mestrado e inovação corre minhas verias desde 2014 com o Gerencialmente de alguns projetos de P&D. Ainda mencionei que desenvolvi Programação em Matlab para chegar aos meus objetivos de previsão do preço de energia. Aqui mais uma vez, uma ação predatória da instituição perguntando se eu poderia dar aula de programação. Eu posso ter desenvolvido meu Mestrado em Matlab, mas toda esta minha expertise valeria ser disseminado a troco de uma remuneração baixa? Aqui novamente não percebi nenhum ganha-ganha.

Caro leitor, espero que estes exemplos práticos do passo a passo de uma entrevista para emprego lhe orientem para a melhor decisão a ser tomada. A pandemia nos trouxe cenários adversos em que muitos perderam seus empregos, mas será mesmo que vale a pena aceitarmos empregos predatórios? Se aceitamos estas empresas predatórias, quer dizer que as mesmas estão conseguindo impor seu estilo predatório, sendo que hoje o que se preconiza é a gestão mais humana, focada em pessoas.

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Frank Toshioka é Mestre em Desenv. de Tecnologia, Engenheiro Eletricista e Cientista de Dados - Especialista em Medições SMF, ADMS, SCADA, Hemera CAS, Copel, SCDE CCEE, SAMUST ONS. Gerente de Projetos de P&D - temas Blockchain, GD e Eletromobilidade. Frank Toshioka é Mestre (Stricto Sensu) em Desenvolvimento em Tecnologia pelo Lactec (2017) - Dissertação: Previsão de preço semanal de energia elétrica com dados com limites de saturação através de redes neurais artificiais e Engenheiro Eletricista pela Universidade Federal de Santa Catarina (2004). Também é Escritor com 3 livros já publicados. Atualmente é Engenheiro Eletricista da Copel Distribuição, tendo experiência nas seguintes áreas: 1) Mercado e Comercialização Copel Distribuição (01/06/2014 até a presente data) a) Gestão de migração de consumidores do Ambiente de Contratação Regulado (ACR) para o Ambiente de Contratação Livre (ACL) e Apuração da carga Copel Distribuição (base CCEE – Câmara de Comercialização de Energia Elétrica) b) Gestão do processo MUST - Montante de Uso do Sistema de Transmissão junto ao ON; c) Representante da Copel Distribuição de vários processos da CCEE (Ajustes de medições de fronteira, modelagens, Topologia da carga da Copel Distribuição, Medição Física e Contábil). d) Automações de sistemas envolvendo Gestão de Ajustes de Medições e 2) Gerente de Projetos P&D ANEEL nos temas de Inteligência Artificial na Previsão de Preços de Energia, Gestão de Energia pelo lado da demanda na Mobilidade Elétrica e Marketplace Descentralizado para Comercialização de Energia Elétrica baseado em Blockchain.3) Manutenção dos Sistemas da Copel Distribuição: a) 01/06/2012 a 31/10/2013 - Manutenção de Redes de Distribuição Gerenciamento de manutenção preditiva, preventiva e corretiva de redes de distribuição aérea convencional e compacta; b) 01/11/2013 a 31/05/2014 - Supervisão de inspeção preventiva e preditiva de redes de distribuição aérea: Acompanhar o desempenho dos índices de controle e continuidade (DEC/FEC) da manutenção do sistema de distribuição da macrorregião de Maringá; 4) Projetos, Fiscalização de Obras da Copel Distribuição (12/08/11 a 31/05/2012) - Elaboração de Projetos de rede aérea convencional e compacta; Fiscalização de Projetos de rede aérea e subterrânea, obras de saídas de Subestações e obras de Subestações Móveis; Participação de grupos de trabalho envolvendo redes subterrâneas. 5) Outras atividades: Mentor de Modelo de Negócios junto a Startups; Conselheiro Suplente do Crea-PR - Câmara de Engenharia Elétrica desde 2019. Livros já publicados: em 10/06/19 - A produção do conhecimento na engenharia elétrica, da Atena Editora - Capítulo Sistema gestor de ajustes de medições de fronteira Copel Distribuição.

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