Imprensa honesta, nem pra inglês ver

Imprensa militante, engajada em causas políticas, parcial, defensora de interesses escusos, todos nós sabemos: não é exclusividade da imprensa que atua e faz fortuna no Brasil.

A imprensa que aqui somos obrigados a ter que conviver tem como principal compromisso fazer propaganda dos seus principais financiadores. Nas horas vagas, se houver, ela se dedica a noticiar fatos.

Antes nossa imprensa fosse política. Não. Ela é partidária, é do partido do poder, de um poder que esteja disposto a comprar a sua opinião e isenção. Mas muitos, por muito tempo, imaginavam que isso só vigorasse no Brasil. Outro erro.

Vejam o caso do tradicionalíssimo e respeitado The Daily Telegraph e a “cobertura jornalística” que ele está dedicando à candidatura de Jeremy Corbyn ao cargo de primeiro-ministro inglês. Mal foi dada a largada da campanha das eleições legislativas de dezembro, e a campanha de desinformação segue de maneira alucinada.

 

Reportagem de Harry Brennan (T.D.T, 9/11/2019, seção Money, p. 1) assegura que ricaços estão “aterrorizados” com a possibilidade que Jeremy Corbyn possa ser o próximo primeiro ministro”. Por isso, “estão mandando seu dinheiro para fora antes das Eleições Gerais do próximo mês”.

Contas nos bancos suíços são o porto seguro escolhido por muitos, e consultores financeiros têm dito que perguntas sobre transferências de dinheiro para paraísos fiscais têm crescido. Alguns correntistas estão programando transferir quantias agora, para que seu dinheiro possa ser enviado para fora em minutos após o anúncio de uma possível vitória eleitoral dos trabalhistas.

 

Mais um pouco, caso houvesse um pouco menos de pudor ao jornalista, e ele nos revelaria que Corbyn pretende, tal como os bolcheviques no raiar da guerra civil pós-revolução de 1917, impor requisições forçadas aos camponeses ingleses.

 

Não seria um exagero. Pois o clima catastrofista construído pela matéria poderia levar a qualquer um a deduzir isso. Qualquer um, em termos: alguém que tivesse muito dinheiro, como os “ameaçados” pela economia de guerra do possível futuro Comissário Corbyn:

Eles temem que a ala radical da esquerda no governo cause uma dramática derrubada no valor da libra e que os controles monetários introduzidos resultem em barreiras para a movimentação de ativos para o exterior.

 

O clima conspiratório é tão fantasioso que nos faz pensar que esses ricaços – alvos da tirania stalinista de Corbyn – talvez invejassem os pobres ingleses. Nunca foi tão dramático ser membro da elite britânica de ricaços:

Uma torrente de dinheiro para fora do país num eventual governo Corbyn levaria rapidamente a uma perda de bilhões de libras em ganhos tributários dos super-ricos “Nom-doms” – residentes britânicos que obtêm vantagens tributárias por estar legalmente domiciliados fora da Grã-Bretanha. Os ganhos obtidos com tais tributos conheceram uma queda no último ano fiscal e o montante de recursos gerados a partir dessas taxas caíram em 2 bilhões de libras de um aperto de novas políticas que os pressionaram a ter que pagar mais.

A chegada de Mr. Corbyn ao Nº10 poderiam causar um dreno similar nas finanças da Nação, especialistas afirmam.

 

O que seria então da terra da Rainha sem seus ricos? Mas não são apenas “non-doms” que estão em polvorosa. Pessoas com menos investimentos fora da Grã-Bretanha estão considerando abrir contas em bancos do exterior.

 

E as fontes do jornalista são as mais confiáveis e isentas possíveis, a ingenuidade e a pureza que exalam das respostas chegam a ser comoventes:

De acordo com Mark Davies da Mark Davies & Associates, uma firma de consultoria.

Nós facilitamos bastante novas operações para serviços bancários da Suíça no passado em poucos meses”, ele disse. Uma das coisas que o povo está mais assustado é com os controles monetários. Eles não podem fazer muito sobre os inevitáveis aumentos de taxas, mas eles podem transferir seu dinheiro para outro país.

 

O consultor apresenta alguma prova? Algum documento comprovando o que ele afirma? Mas como, alguém poderia argumentar: “ele não pode revelar nomes, ele tem que preservar o sigilo dos seus clientes”. Sim, mas o sigilo se refere a nomes e não números. Mas quem disse que o jornalista cuidou de pedir tais provas? Quem disse que ele se interessa por provas ou documentos que embasem as falas de suas “fontes”? Quem acha que jornalismo sério alguma vez foi sua preocupação?

 

E ele não resiste, e recua no tempo para buscar as raízes dos controles de remessas. Ele chega na II Guerra Mundial. Portanto, a tentação de associar Corbyn a Stalin fica bem quente.

Controles de câmbio e remessa foram usados antes pelo governo trabalhista de Harold Wilson, e antes da irrupção da Segunda Guerra Mundial para prevenir uma corrida de libras. Eles foram abolidos por Margaret Thatcher em 1979.

 

Ah, mas não precisa descer tanto ao ridículo. O recurso a velha neoliberal Iron Lady funciona como o fecho de ouro a uma matéria escrita com tanta objetividade. É lógico que não passou em nenhum momento pela cabeça brilhante Brennan de criar uma associação entre Thatcher e sua política a um suposto antídoto à maligna candidatura de Corbyn. Claro que não, Brennan e seu jornal não seriam capazes de produzir um raciocínio tão rasteiro e anacrônico.



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