Imersão do eu e minha mente

Você ouve vozes ? Provavelmente sim, pois todos nós temos como parte de nossa essência a mente, estado onde habitam as vozes que a todo instante nos sugere. Mas o que são essas vozes para você ? A maioria de nós acredita ser nós mesmos, ou seja, quem somos, o que nos escraviza e encarcera, pois a causa primária da infelicidade nunca é a situação, mas seus pensamentos sobre ela. Enquanto você pensa, você acredita que é você que está pensando. A maioria de nossas ações são motivadas pelo inconsciente, o que nos leva de forma imperceptível a acreditar que somos nós mesmos quem conduz plenamente tudo que nasce de nossos desejos, pois acreditamos nas vozes que ouvimos oriundas de nossas mentes como se fossem nós mesmos e assim estamos constantemente pensando. Esse ruído mental nos impede de encontrar a serenidade, o que impede de sabermos quem somos de verdade, fazendo com que a mente crie um falso “eu” projetando uma sombra de medo e sofrimento sobre nós.
Somos pensadores compulsivos contextualizados de conflitos endógenos tornando o pensar uma doença quando usado incorretamente. Quando trabalhado adequadamente a mente é a melhor ferramenta para obtenção do equilíbrio, entretanto quando usada de forma errada se torna altamente destrutiva, assim como um martelo nas mãos do carpinteiro produz artes, nas mãos do assassino se torna uma arma mortal, nisso consiste o entendimento que não é você que usa a mente de forma errada, você simplesmente não a usa, é ela que usa você. Essa é a doença.
Nós acreditamos ser a nossa própria mente, acreditamos sermos nossos próprios pensamentos, a isso dar-se o delírio, o instrumento se apoderou de você.
Reflexão: Você sabe onde está o botão que desliga sua mente ? Você se desvincula dela sempre quando deseja ? Se não, é porque ela lhe domina e lhe conduz. Possuímos um vínculo de identificação tão estreito com nossas mentes que não percebemos o quanto somos escravos dela.
Dentro desse contexto fica então compreensível aceitar que não somos a nossa mente.
Se você vai ao médico e diz que sempre ouve vozes, provavelmente você será encaminhado a um psiquiatra, embora saibamos que todos nós possuímos vozes dentro de nossos pensamentos, logo não se trata de nenhuma patologia psíquica, mas sim, os processos involuntários do pensar, os insights oriundos do inconsciente que acreditamos não podermos interromper, manifestando-se como monólogos ou diálogos que por muitas vezes nos faz agir com atitudes estranhas como, falar e gesticular como se estivéssemos conversando com alguém embora ninguém visivelmente esteja por perto. Poucas pessoas não passaram por experiências desse tipo. São vozes que sugerem, comentam, especulam, criticam, comparam, julgam, em fim, por vezes não são tão relevantes para determinadas situações, elas simplesmente podem estar revivendo um passado recente ou remoto, ou podem estar contemplando possibilidades futuras acompanhadas de filmes ou imagens mentais dando uma possível ornamentação de realidade e assim julgamos o presente com os olhos do passado alicerçados por experiências vividas ou sentidas construindo uma imagem distorcida. Não é incomum que essas imagens se tornem nossos piores inimigos. Muitas pessoas vivem com um torturador mental que não param de julgar e atacar a todo instante intensificando cada vez mais o desconforto psíquico drenando sua energia vital. Essa é a verdadeira causa das muitas infelicidades que se manifestam na matéria através da psicossomática. Nisso consiste entender o conceito da relação “causa x efeito”. Essa é a grande questão, tão desafiadora quanto esperançosa; podemos nos libertar de nossas mentes dando mais plasticidade e poder transformador a nossos padrões mentais. Essa é a única libertação verdadeira. Preste atenção o que as vozes lhes dizem, principalmente no formato de padrões repetitivos. A liberdade se inicia quando percebemos que não somos a entidade dominadora. Se apossar dessa consciência nos permite observar a entidade, precisamos ser observador de nossos pensamentos, pois nós estamos abaixo do pensar, nós somos o equilíbrio e a quietude de nosso ruído mental. Nós somos a consciência disfarçados de pessoa, nisso consiste o entendimento que não somos seres humanos que possui espírito, mas somos espíritos vivenciando uma experiência humana. Isso ativa um nível mais alto de consciência, o que descortina muito de dúvidas que nem percebemos que possuímos, é quando nos damos conta de que existe uma imensurável área de inteligência além do pensamento e que esse é um ínfimo aspecto da inteligência que habita em nós e que muitas coisas importantes como, amor, paz interior, beleza, criatividade, nascem de um ponto além da mente. É quando começamos a despertar de um sono que já não faz mais sentido continuar.
Ouça a voz dentro de você e traga consigo uma testemunha, se abstenha de qualquer julgamento, não condene o que você ouve, pois fazendo isso é deixar que a voz retorne e saia pela porta dos fundos. Sentir a própria presença não é um pensamento, é algo que surge e tem sua gênese além da mente, assim ao ouvir um pensamento você estará consciente não apenas do pensamento, mas de você mesmo como testemunha do próprio pensamento. Isso acontece porque uma nova dimensão de consciência se abriu para você.
Quando se ouve o pensamento, você ouve uma presença consciente, que é o seu “eu” interior que vem de uma região mais profunda, por trás do pensamento. O pensamento então perde o poder que exerce sobre você e se aparta rapidamente porque a mente já não está mais recebendo a energia gerada pela sua identificação com ela, esse é o começo do fim do pensamento involuntário e compulsivo, onde se percebe uma interrupção do fluxo mental gerando espaços na mente. No início esses espaços são curtos, podendo dar-se por apenas alguns segundos, porém gradativamente vão ficando maiores propiciando sentimento de paz interior que é o estado natural de unidade com o ser e que é encoberto pela mente.
É preciso nos dissociarmos de nossas mentes.
Essa é a essência da meditação que responde a questões existenciais, origem das infelicidades e chave para acessar o “eu” desconhecido de cada um.



Mercadólogo, consultor comercial, teólogo, coach, psicanalista.

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