Geringonça ameaçada

As eleições legislativas de Portugal transcorreram no dia 6 de outubro e confirmaram o domínio do Partido Socialista não apenas entre as esquerdas, mas sobre o cenário político português como um todo. A proposta de renovação do mandato da Geringonça[1] prevaleceu.

O Partido Socialista venceu de forma expressiva as legislativas portuguesas e deve formar Governo, conquistando 36% dos votos. Portanto, não conseguiu maioria absoluta. Já que os votos representam 106 cadeiras no parlamento português, num total de 230 assentos. Para formar governo, Antonio Costa precisa agregar a sua proposta de coalisão um partido ou mais que perfaça ao menos mais 10 deputados.

A mesma eleição terminou com o PSD de direita obtendo 77 e possíveis aliados como o Bloco de Esquerda, 19; o Partidos Comunista, 10 e o PEV, 2.

Portanto, como sua vitória não foi suficiente para governar com maioria ampla, ele precisa fazer acordos, montar alianças que o sustentem. Ele é obrigado a costurar o que muitos já estão chamando de “Geringonça 2.0”.

O PCP é carta fora do baralho, ele impôs duras condições ao PS, como a saída do Euro, o que é inconcebível para Antonio Costa.

O partido mais cogitado para esse papel de principal aliado é o BE. Poderia se pensar que este não dificultaria em nada uma aliança com o PS. Até porque ela vem dando certo, por que não mais 4 anos juntos, sob a liderança de Antonio Costa? Só que os dirigentes do BE já avisaram: não há hipótese de novo apoio se o PS não revisar a legislação laboral em vigor desde o acordo com a União Europeia. Legislação essa que estabeleceu medidas como redução da possibilidade de contestação de demissões, redução dos dias de férias e horas-extras, entre outras.

As partes parecem pouco dispostas a cederem. A Geringonça pode estar por um triz. O PS alerta a todo momento que isso pode gerar uma grande instabilidade política. Mas o BE se mantem firme. É pegar ou largar. Menos precarização do trabalho (e mais 4 anos de governo) ou o “risco” de novas eleições.

 

É inevitável não pensarmos na conjuntura brasileira, no campo específico das esquerdas, e imaginarmos uma situação dessa, em que o PT (fazendo o papel de PS), precisando urgentemente do apoio do PSOL (o nosso BE).

Vocês acham sinceramente que o PSOL teria uma posição altiva e firme como o seu homólogo português diante das investidas petistas?

Eu cá duvido.

[1] Coligação das forças de esquerda (BE, PCP, VERDES) em torno do nome de Antonio Costa e do Partido Socialista. Tal acordo sofreu intensas críticas. Analistas do espectro liberal (categoria dominante nos meios empresarias e na imprensa portugueses) avaliavam que essa coalizão levaria o caos econômico ao país, já que se esperava que Costa iria “virar a página da austeridade”, promovendo um divórcio em relação ao mercado financeiro e à doutrina do Banco Central europeu. Politicamente, a coalização sofria ataques por ser considerada frágil. Daí que Paulo Hortas, líder do direitista CDS-Partido Popular afirmou que a coalização das esquerdas não era “um governo, mas uma geringonça”. Mas ela foi dando certo, e acabou sendo incorporada positivamente pelos próprios integrantes da coalização, isto é, Geringonça.

 



Diga-nos o que achou do post: