Estranho, não?

Quando a maioria das pessoas pensa em Educação, logo lhes vem à mente escolas e universidades. E elas não estão erradas, em parte. O que a maioria das pessoas desconhecem é que Educação não se resume apenas a esses dois equipamentos de instrução. Na verdade, ela engloba um mundo maravilhoso, fantástico e animador que dificilmente lhe contam na escola! Quer saber mais sobre isso? Então, venha comigo!

As grandes áreas da Educação

Educação se divide em duas grandes áreas: a formal e a não-formal, de modo geral. A sua parte formal requer um espaço próprio, com profissionais treinados e um conteúdo estruturado em sequências regulares para que uma determinada coisa seja conhecida aos poucos, como, por exemplo, escrever o próprio nome. Esse tipo de trabalho se dá nas escolas, institutos e universidades, geralmente.

A parte não-formal são todos os equipamentos culturais, instituições sociais, grupos sociais a que se pertença, enfim, é a vida! Pois, embora não haja o intuito de ensinar algo aos pouquinhos, num sistema mais ou menos fechado, você acaba aprendendo da mesma forma. Por exemplo, recentemente assisti a um videoclipe de seis minutos, em média, de uma das minhas bandas favoritas e aprendi mais sobre Sociologia e Ciência Política do que se tivesse lido uma biblioteca inteira sobre o assunto. Entretanto, alguém estudou profundamente essas ciências para ser capaz de produzir um vídeo de tamanha qualidade e de conteúdo sublime.

No outro dia, seguindo uma sugestão de videoclipe do YouTube, acabei assistindo um vídeo de uma banda mongol, e aprendi, lendo os comentários, tudo o que não aprendi na escola sobre a História dos Hunos, como moldaram o mundo conhecido, como foi feita a unificação do que hoje chamamos de Mongólia e ainda assisti a um filme sobre a vida de Átila, o Huno e outro sobre Genghis Khan, tudo na mesma tarde! Bacana, não?

A Educação Formal

O que quase ninguém realmente percebe é que ambas as partes alimentam uma à outra de formas bem legais. A parte formal da Educação se ocupa em pesquisar coisas com muito detalhe e cuidado. Por vezes, leva muitos anos de dedicação, frustração, preocupação, vontade de chutar tudo para o alto e ir vender a própria arte na praia, mas aí se lembra que não se sabe fazer arte.

Sem a pesquisa, não é possível fazer novas descobertas que ajudem a resolver velhos e até mesmo novos problemas. Melhora as vidas das pessoas e torná-las mais confortável e menos cara. Com uma boa pesquisa feita, é possível fazer algo muito importante: ensino. Sim, é através do ensino que se conecta o antigo e o novo conhecimento!

Assim,  o quebra-cabeças vai sendo montado, fornecendo novas ferramentas para quem aprende ir mais longe e fundo do que aqueles que vieram antes. Essa pessoa que aprende, vai comunicar e divulgar esse novo saber de diferentes maneiras, e é aí que a diversão começa.

Há diversas maneiras de se fazer extensão: de Pré-vestibular social a competições. E, fazendo isso, o Céu é o limite! As diversas ciências podem conversar entre si sobre aquele tema que foi pesquisado e ensinado. A título de exemplo, certa vez, vi uma linda exposição de arte num museu. Nada mais era do que fotografias muitíssimas vezes ampliadas de diversos vírus que constantemente atacam a saúde humana.

Pesquisa, Extensão e Ensino: três partes de um todo

Para que fique claro como a luz do dia, imagine o seguinte: por vários anos uma equipe formada por pesquisadores de áreas diferentes trabalhou noite e dia, seis dias na semana, deixando de comer rabanada no Natal e comemorando Ano Novo por dois minutos dentro do laboratório para não atrasar a pesquisa, abrindo mão de festas e eventos familiares, conseguiu, enfim, descobrir uma coisa muito legal: um tipo diferente de dinossauro.

Acharam um esqueleto quase inteirinho, fizeram um monte de pesquisas sobre aquele animal e descobriram que faz parte de uma família de dinossauros até então desconhecida, mas que ajuda a entender a evolução de três espécies conhecidas. Isso é algo extraordinário em termos de pesquisa! É realmente muito impressionante, sem dúvida.

Bom, essa equipe conseguiu encontrar uma porção de respostas importantes, mas, se contarem a ninguém, como as outras pessoas saberão? Simples, não saberão! Então, essa equipe por meios de artigos científicos, congressos, simpósios, seminários e outros eventos acadêmicos bem legais, contam para outras pessoas que também são cientistas profissionais ou que ainda estejam em formação. A isso nós chamamos de comunicação científica.

Dentre as pessoas que ouviram as informações sobre a pesquisa feita, as descobertas e o impacto que isso tem sobre a Ciência como a conhecemos, algumas delas se animam e resolvem criar meios de contar às outras pessoas que podem ser ou não também cientistas, sobre o que acabaram de aprender.

E fazem isso por meio de oficinas, jogos, cursos, palestras, apresentações de seminários, filmes de curta-metragem, desenhos animados, revistas em quadrinhos, bom, o Céu é o limite! E tudo isso é feito de um jeito que as pessoas possam entender sem complicações. A isso nós chamamos de divulgação científica.

As diversas formas de divulgação científica são consideradas extensão. Uma extensão, a grosso modo,  é algo que se origina nas pesquisas acadêmicas e é trazido para a população através de diferentes caminhos, de maneira fácil de compreender, sem deixar de ser um saber científico.

Por exemplo, um pré-vestibular social mantido por uma universidade e ministrado por seus estudantes, é uma extensão. Um curso de curta duração sobre História da Baixada Fluminense é uma extensão. Uma oficina sobre como fazer sabão na cozinha de casa, é uma extensão.

A partir de então, esse conhecimento é transmitido para uma variedade grande de pessoas, e, algumas delas, como professores, recebem esse conhecimento, picam ele em pequenos pedaços, colocam em uma determinada sequência e os oferece em sala de aula, passando a ensinar tal novidade aos seus queridos estudantes.

Uma coisa que pouca gente entende é que o fato de uma pesquisa acadêmica ter chegado numa sala de aula do Oiapoque não significa que seu ciclo terminou. Na verdade, a fase do ensino dá novas ferramentas e ideias para aprofundar aquela pesquisa inicial, tornando possível o progresso da Ciência.

Como isso afeta sua vida, na prática

Continuemos com o exemplo do dinossauro. Depois de 6 anos de pesquisa, em 1964, a Equipe X, da Universidade Federal LMNOPQRST descobriu um parente distante do Brontossauro no meio do Amapá. Era uma parente tão distante que nem o Brontossauro conhecia.

Mais de dez anos depois, a Equipe X publica um artigo científico na Revista EFG, que é super conceituada e mundialmente aclamada dentro daquela área de estudo, contando as principais descobertas feitas ao pesquisar o parente distante do Brontossauro. E isso causa um alvoroço, pois, é um conjunto sensacional de descobertas.

Os membros da equipe vão a eventos acadêmicos dentro e fora do país, contando as coisas maravilhosas que descobriram, de que jeito se relaciona com aquilo que era conhecido até então e que processos foram usados para chegar àquelas conclusões. E todos ficam maravilhados!

Em diferentes lugares, diferentes pessoas formam grupos de trabalho sobre o tema e alguns desses grupos se empenham em criar formas de extensão, como que as outras pessoas também possam ser maravilhadas com tamanho conhecimento.

Em São Paulo, um desses grupos cria um curso de dois meses de duração. Em Rio Branco, outro grupo cria um documentário. Em Maceió, é feita uma instalação ao ar livre. Em Belo Horizonte, faz-se um gibi didático. Em Uaru-Jaru, faz-se oficinas lúdicas. No Rio de Janeiro, faz-se uma exposição dentro de um museu. Em João Pessoa, faz-se um ciclo de palestras e rodas de conversa. E estou enumerando apenas algumas iniciativas.

E Ana, uma personagem fictícia para representar toda e qualquer pessoa, tem contato com alguma dessas iniciativas e conta para seu círculo de amigos e parentes.  Um dos amigos de Ana tem acesso ao gibi mineiro e decide melhorar o roteiro, consegue financiamento e bom, você conhece aquele filme, o Jurassic Park? Foi o amigo da Ana quem fez!

O outro amigo da Ana vê o documentário acriano e acha uma boa ideia fazer uma pesquisa própria, a qual, mais tarde, dá origem a um livro de poesias sobre dinossauros. Você já ouviu falar no Gilberto Gil? Ele provavelmente leu e gostou do livro, e deu de presente de aniversário ao Carlinhos Brown, o qual gostou tanto que até começou a fazer umas músicas para o Carnaval de Salvador!

O curso em São Paulo encantou tanto a mãe de Ana que ela nunca mais se referiu a ovos do mesmo jeito. Agora ela só os chama de filhotes de dinossauro. As galinhas são dinossauros em miniatura, de acordo com ela (e são mesmo). Sob influência dela, o primo da Ana fez uma das oficinas rondonenses e amou tanto que resolveu estudar Museologia. Hoje dirige um Museu de História Natural em Assunção, Paraguai.

E o irmão da Ana foi na mesma onda do primo, só que ele sempre foi o artista da família e criou algumas séries de desenhos animados que ele vendeu para uma produtora japonesa.  Você já ouviu falar em Yu-Gi-Oh, Dragon Ball e Coo? É, esses são os mais famosos criados por ele. Sim, dragões também contam como dinossauros.

O entretenimento se alimenta da produção acadêmica e você não nota, pois, está tão enraizado no nosso modo de nos divertirmos que parece absolutamente natural. E quando isso acontece, você percebe que está em um espaço não-formal de Educação. Isto é, lhe ensina algo, mesmo sem querer.

Quando sua diversão alimenta a Ciência

Nas Ciências Humanas e Sociais, é comum identificar algo de diferente sobre determinada pessoa, grupo, instituição ou país e estudar sobre aquilo que parece ser diferente. Mas também é possível fazer isso sobre obras de arte das mais variadas.

Livros inteiros já foram escritos analisando a peça Romeo e Julieta, de William Shakespeare, por exemplo. Pessoas em diferentes épocas e locais, dedicadas a diversas ciências já fizeram análises sobre essa peça teatral.  Já pesquisaram pelo viés literário, histórico, filosófico, político, psicológico, geográfico, biológico… ufa! E tudo isso sobre apenas um dos muitos textos de Shakespeare!

As Ciências Naturais e Exatas também contribuem bastante nessa busca por conhecimento. Apenas com o estudo da Química é possível determinar que corantes eram possíveis de se extrair naturalmente e sua durabilidade em uma peça de roupa. Isso determina em parte como era a economia local baseada nas vestimentas e costumes.

Com a Biologia, determina-se o tipo de dieta que se tinha com base não apenas nas características da terra naquela época, como também o tipo de veneno tomado pelo casal da peça. As Relações Internacionais nos ajudam a entender  as transações comerciais e políticas que Verona mantinha com outras cidades-estado e reinos.

Tais relações também determinam os tipos de doenças e curas presentes de maneira mais comum naquele local e época específica. A Economia demonstra-nos como Verona se mantinha como cidade-estado independente e autônoma e como a elite se tornara elite e que razões justificavam a existência dos mais pobres.

A Nutrição nos mostra o valor alimentar do tipo de dieta consumida por cada camada social e seus efeitos na saúde geral da população. A Sociologia nos ajuda a entender que camadas da sociedade tinha acesso ao que. A Filosofia nos capacita a tentar entender o pensamento corrente daquelas pessoas e como isso as habilitava a agirem em benefício próprio e daqueles que tinham sua simpatia.

A Linguística nos previne de cairmos em ciladas produzidas no texto, contexto e metatexto, facilitando a compreensão daquilo que o autor se propôs a nos contar. Tantas outras ciências podem ajudar tanto a entendermos melhor cada pequeno aspecto dessa obra…

E você ainda pode argumentar que não gosta de ler, especialmente livros escritos há mais de 400 anos. Bom, olhe só: Romeo e Julieta é a peça escrita por Shakespeare com mais montagens teatrais e mais adaptações para o cinema. Em algum momento você teve contato com essa tragédia em sua vida.

Por falar em livros, sabia que Alice no País das Maravilhas e Alice Através do Espelho, de Lewis Carrol são baseados na Aritmética? Você sabia que os vitrais de igrejas e de outras obras arquitetônicas mais antigas só foram possíveis graças a complicados cálculos geométricos?

Citei autores estrangeiros antigos e conhecidos, mas, poderia facilmente citar Machado de Assis, o grande autor brasileiro, ou Monteiro Lobato, bem como Cecília Meirelles, Ana Cristina César e Hilda Hilst, apenas para ilustrar o que digo. Nenhuma forma de diversão e arte escapa ao interesse científico.

Assim, é possível compreender que Educação e Cultura andam de mãos dadas e que ensino, pesquisa e extensão são partes da mesma coisa. Creio ser importante frisar que essa valsa entre a Educação formal e não-formal acontece graças à existência das escolas, institutos e universidades públicas em nosso país, que são os lugares que produzem pesquisas, ensino e extensão como aquilo que são: partes distintas da mesma coisa.

O que acredito ser muito estranho é que em outros países se acredita que dar força à Educação é investir em melhoria do modo de vida geral de toda a população. Pergunte à Finlândia, Alemanha e a esses outros países aqui, não precisa acreditar no que digo. Mas, parece que em nosso país, não é assim que acreditam.

Na sua opinião, isso é estranho? De que modo? Se tivesse que fazer algum tipo de mudança, qual seria? De que maneira faria? Conte em detalhes nos comentários abaixo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 



Estudante da vida e suas conexões, professora por ofício e vício, pesquisadora por necessidade, ajuda as pessoas a atingirem suas metas de modo personalizado, barato e sem justificativas usando a Educação como principal ferramenta.

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