Elites, incivilidade e política

Em seu artigo do The Guardian, o escritor George Monbiot* faz uma interessante reflexão sobre os impactos da educação transmitida nos colégios internos sobre a elite política da Inglaterra.
Segundo ele,
“Há dois fatos rígidos sobre a política britânica: o primeiro é que é controlada, num grau sem paralelo em qualquer outra nação da Europa ocidental, por uma minúscula elite quase nada representativa. Como a quase todo aspecto da vida pública aqui, os governos são dominados por pessoas educadas primeiramente em escolas privadas de elite, como as de Oxford ou Cambridge.
O segundo é que muitas daquelas pessoas possuem um desastroso conjunto de vícios: desonestidade, corporativismo e total ausência de princípios. Vejam se nosso Primeiro Ministro não é um exemplo disso? O que norteia ele? Como foi possível esse tipo de gente nos governar hoje? Nós precisamos urgentemente entender um sistema que envenenou a vida desta nação.”

Segundo ele, os colégios internos são verdadeiras fábricas de produção de membros da elite voltadas para o controle dos principais postos da administração pública do país. Não são apenas unidades educacionais, mas centros de difusão e inculcação de valores. Os ecos da sociologia educacional francesa da lavra de Pierre Bourdieu são evidentes.
“Ambos de nós sofremos uma forma de abuso peculiarmente britânica, uma intimamente associada com a natureza do poder em nosso país: nós fomos enviados para internatos quando nós éramos muito jovens.”

Mas o ponto mais relevante é este: a repugnância que caracteriza hoje a maior parte da classe política britânica, em especial a mais conservadora e de direita, tem uma razão de ser. E os colégios internos, com seus valores que beiram a boçalidade, o desprezo pelos sentimentos do outro, a descrença em qualquer empatia, uma quase falta de humanidade, tem uma contribuição fundamental.

Continua ele:
“A justificativa para o internamento é baseada numa difundida e por isso comum ideia equivocada. Porque a dureza física na infância torna você fisicamente resistente, os fundadores do sistema acreditam que a dureza emocional deve produzir resistência emocional. Na verdade, temos o oposto. Isso causa danos psicológicos que somente anos de amor e terapia podem posteriormente reparar. Mas se há duas coisas que você sendo enviado para um colégio interno eles acabam te ensinando, é que não se pode confiar, e que você não deveria admitir que precisa de ajuda.”

Acredito que essa reflexão de Monbiot seja bastante pertinente, atacando o cerne da crise na relação entre a classe política do país e a sociedade civil, como o Brexit evidenciou.

Penso que muitos britânicos ao lerem se sintam instigados a concordar. Não sei, é apenas um palpite. Mas o mais importante para nós brasileiros: o que esse texto teria de relevante para pensar os dilemas de nosso país?

Logicamente, os dois países têm realidade bem distintas. A história, a organização da sociedade, a dinâmica da política, o tamanho de cada país, as diferenças regionais dentro dele etc. É tudo muito diferente.

Muitos poderiam pensar que em que pese todos os problemas, não dá para dizer que a vida política seja monopolizada por uma elite econômica. Nem todos os deputados que temos e até senadores, estudaram nas melhores escolas do país. A casos comprovados que alguns de nossos parlamentares nem plenamente alfabetizados conseguiram ser.

Contudo, vários postos da administração pública, principalmente aqueles ligados ao braço econômico do estado (ministério da Fazenda, do Planejamento, receita federal etc.) são sim monopólios de uma elite que educada nos centros de ensino mais seletos do país.

Na verdade, a democratização da política do país é só aparente. Quando se vê os postos mais estratégicos da administração pública, estaremos lidando com um grupo muito restrito que comanda os destinos do país, que decide a direção dos investimentos do Estado, que determina quem tem que ser taxado, pagar impostos, e que determina também quem deve abocanhar as maiores e melhores fatias do orçamento público. Não é preciso ter profundo conhecimento sobre as entranhas da economia do Brasil para saber quais setores e agentes são privilegiados pela política desses meninos saídos dos bancos da PUC do Rio, por exemplo.

E o artigo de Monbiot pode ajudar a pensar como o caráter tão marcadamente anti-popular dessas instâncias pode ter relação sim com esses centros de ensino, que são também centros de formação de caráter.

  • MONBIOT, George. “Our politicians are formed in a cruel crucible: boarding school”, In: THE GUARDIAN, 07/11/2019, Seção Opinião, p. 4.


Diga-nos o que achou do post: