“Eletrochoque” – Uma polêmica desnecessária e anti-ciência.

Se você já ouviu falar em tratamentos com “eletrochoque”, existe uma grande possibilidade de você ter ouvido bobagem.

Imagine que você tenha um membro de sua família acometido por uma depressão catatônica – um subtipo de depressão caracterizado por não falar ou parecer estar atordoado por um longo período – e este não esboça mais nenhuma reação. Os médicos já tentaram diversos medicamentos, assim como inúmeras sessões de psicoterapia, mas nenhuma dessas estratégias apresentaram um resultado satisfatório e a situação parece não ter mais solução. Eis que o psiquiatra propõe um tratamento que ainda não havia sido tentado, e que possuí bons resultados cientificamente comprovados no mundo todo.

O método chama-se Eletroconvulsoterapia (ECT), um tratamento extremamente eficaz e seguro, indicado para alguns tipos de depressão, mas que é incompreendido e confundido com tratamentos antiquados e dolorosos, principalmente porque, no passado, era conhecido como “eletrochoque”.
A princípio, você e sua família ficam com receio sobre a utilização do procedimento, pois já ouviram histórias absurdas acerca do método, mas o sofrimento em ver um ente querido naquela situação desesperadora, parecendo uma uma estátua de cera é tão grande que vocês aceitam aderir ao tratamento. E para a surpresa de todos da família, o procedimento começa mostrar resultados significativos logo nas primeiras sessões. Maravilhoso, não?!

Agora imagine uma família passando pela mesma situação, com possibilidade de acesso ao tratamento gratuito pelo Sistema Único de Saúde (SUS), mas é impedida de iniciar o procedimento por conta de uma determinação da justiça que, pautada em argumentos de grupos contrários à ECT, resolve banir a utilização do método terapêutico, sem nenhum embasamento científico para tal.
Óbvio que estes argumentos, baseados apenas em eventos ocorridos na década de 1930, não são suficientes para banir a prática da ECT no país, mas vale a pena refletir sobre as recentes tentativas de impedir seu uso.

A polêmica da vez envolvendo a eletroconvulsoterapia (ECT) começou recentemente, após o Ministério da Saúde anunciar o psiquiatra Dr. Rafael Bernardon Ribeiro ao cargo de coordenador-geral de Saúde Mental, Álcool e outras Drogas do Departamento de Ações Programáticas Estratégicas, da Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Desde então, grupos contrários ao uso da ECT tem se manifestado nas redes sociais com o discurso “Não ao retrocesso. Eletrochoque nunca mais”, alegando que o referido médico defende publicamente a prática.Tudo porque, em uma entrevista feita ao Canal da Psiquiatria, em 2013, Ribeiro disse: “A eletroconvulsoterapia é um tratamento utilizado na medicina desde 1938, ele persiste justamente por ser muito bom. Tem uma resposta na ordem de 90%, o paciente tem algum benefício em 9 a cada 10 casos tratados”.
Segundo os opositores do método, Ribeiro seria um defensor público do “eletrochoque”.

Mas afinal, para quê serve e como funciona esse procedimento?

A Eletroconvulsoterapia (ECT) é um tratamento extremamente eficaz e seguro, indicado para alguns tipos de depressão. Geralmente é utilizado quando as medicações não surtiram efeito ou quando há excesso de efeitos colaterais das mesmas. Outras circunstâncias incluem gestação (pois muitas medicações podem fazer mal para o embrião/feto), ou quando há algum tipo de risco iminente para o paciente (ideação suicida, por exemplo).
A ECT promove disparos rítmicos cerebrais autolimitados. Com isso, ocorre um equilíbrio nos neurotransmissores como a serotonina, dopamina, noradrenalina e glutamato, responsáveis por propagar os impulsos nervosos do cérebro e manter o bem-estar.

Esta reação cerebral, que é monitorada durante o tratamento por meio de Eletroencefalografia (EEG), dura alguns segundos e é fundamental para o efeito terapêutico. A eletricidade é apenas um meio utilizado para isso. O tratamento é feito em ambiente hospitalar, com anestesia geral rápida (sedação), que dura de 5 a 10 minutos. Não há nenhum desconforto ou dor, e o paciente tem alta no mesmo dia.
Não existe no momento presente da Psiquiatria nenhuma terapia em que se dê choque em uma pessoa acordada com finalidades terapêuticas.

Por tudo isso acho lamentável que alguns grupos que dizem lutar pela humanização queiram impedir que pacientes com quadros graves de transtornos mentais tenham acesso ao tratamento seguro, indolor e com eficácia cientificamente comprovada, principalmente quando outros métodos tiveram pouco ou nenhum resultado. Negar essa possibilidade terapêutica, além de ser anti-ciência, é indefensável.

Para quem não está gravemente deprimido, sem conseguir trabalhar, se alimentar e tocar a própria vida ou pra quem não tem um familiar em surto psicótico, onde os medicamentos não fazem mais efeito, é fácil criticar um procedimento que não vai interferir em nada com a sua vida ou de quem se ama.



É graduando em Psicologia e Pesquisador no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo (IPq-HCFMUSP), onde atua no Prgrama de Transtornos do Espectro Autista (PROTEA), além de Bombeiro Profissional Civil.

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