Crônica: O ‘Alienistado’ de 2021

À esta altura me pergunto como o alienista de Machado de Assis poderia sobreviver hoje e manter sua saúde e capacidade mental intactas para trabalhar em seus experimentos. Como iria conter o tsunami da patologia que ele se propõe a curar e que assola grande parte do mundo, mas especialmente, e neste momento, aqui, nessa terra, que é a sua, digo dele, mas também minha e tua, assim como a deles. Terra que, aliás, nunca foi muito ‘certinha’.

Acredito que Simão Bacamarte não precisaria chegar aos meandres mais detalhistas para descobrir na aparente normalidade em que vivemos traços de loucura. Nessa altura, nesse momento, nesse país, hoje, o alienista teria que providenciar mais espaço em seu estabelecimento, pois não caberiam todos os loucos, dos mais brandos aos mais acirrados e violentos. Talvez devesse deixar os malucos, que já lá estavam clinicados, lá no século passado, de fora, e abrir as portas para eles saírem, pois hoje diríamos que subiram de patamar, podem viver livremente, considerem-se sãos, ‘beleza’ de Raul Seixas

Vivo neste cenário e não me custa alertar ao doutor, caso pretenda realmente voltar, que eu já de algum tempo vinha pressentindo que alguma coisa não andava bem. Foi desde que começaram com aquela febre de ‘Revival’, a epidemia dos ‘flash back’, Vale a Pena Ver de Novo e daqueles clichês saídos das bocas dos ‘cotas’ nas esquinas da burguesia que murmuravam entre dentes, irritados: ” – bons tempos eram aqueles” . Isso ocorria principalmente enquanto as escolas, universidades, aeroportos e praias iam se colorindo alegremente de cores antes escondidas por nuvens pesadas, dos tons de café que um dia exploramos, mas que, finalmente se encontravam já libertas para gozar o prazer de colher seus merecidos frutos.

E para conviver com essa loucura, um alienista não basta, nem com toda sua sede de conhecimento. Eu lhe preveniria para vir como um alienado dessa vez, não como alienista, assim não dá na pista, não será combatido. Venha superficialmente. É assim que poderá agir para ter uma boa convivência social nesse país tão dividido… como alienado sugiro que use o que lhe é típico, a hipocrisia, para sobreviver e catar os doentes.

Mesmo sendo leiga preparei um rascunho para adiantar os serviços do psiquiatra, tomei a liberdade de dividir os loucos em três tipos, apenas os casos mais ‘cabeludos’:

O primeiro grupo é daqueles que acreditam piamente que nada é aquilo que é, e que, sim, com certeza, há sempre por trás algo que negará a concretude daquilo que os outros dizem. São vulgarmente conhecidos como ‘negacionistas’, E se você disser a eles isso, vão negar. Mas se disser que não, negarão também, e até irão desconfiar. É que geralmente estão certos que algo os persegue e que esse algo fará algum mau em algum momento, mas que por agora (e desde que o mundo é mundo e o mundo não tem meridianos para eles) o outro lado sempre está conspirando. E de todas as formas possíveis, com chips, mamadeiras de peru, vacinas, jacarés, lulas, baleias ou comunismo. Para eles, sugiro um tratamento que pode até ser dado com um certo grau de compaixão, através de muito estudo. Diria que de início um ‘intensivão’ é necessário, mesmo que lhes possa parecer tortura, mas seguramente lhes dará finalmente paz de espírito. Conhecerão o significado das ‘provas’ e isso será a salvação, o ‘divisor de águas’ para que voltem à vida como ela é, esquisita, mas cientificamente provável. Acho que Bacamarte receitaria o mesmo e os colocaria no primeiro andar do prédio da clínica, próximo já a saída.

O outro tipo, é o da loucura malandra, aquela que sorri de lado, mas com as costas guardadas, não olha nos olhos, e da boca só saem xingamentos e acusações para desviar a atenção. Esse é o tipo de louco que jamais rasga dinheiro. É um olho no mar de Moisés se abrindo e o outro no peixe, melhor ainda, no cardume, com a rede na mão, a mão no bolso, o bolso cheio. cheio de loucura, e a loucura é o verde, o verde do dólar e o amarelo do ouro. O azul é do céu e esse pode esperar, pois as almas se perderam nos subterrâneos da vida e junto com elas foram eles e a empatia, só ficou o dinheiro. Como tratamento, podem ficar no segundo andar. mas em completa abstinência de coisas, matérias e muito menos riquezas. É pra ver se reencontram também a paz do espírito, o que se encontra perdido, algures por aí.

Agora vem os que coloquei no terceiro estágio. São, digamos, a pura raça da loucura extremista. São 100% integrais, cascudos, acho que por isso foram batizados no passado como ‘integralistas’. São os de arrepiar os pelos, principalmente das narinas e ouvidos, porque não há como suportar o barulho que fazem, meio corpos, meio máquinas, mas sem cérebros, movidos com o combustível do ódio, pelas ruas ‘bombeados’ e armados para o extermínio. Pura e simplesmente é só isso. Não há mais nada a dizer porque, como expliquei, o cérebro está vazio e também não acho que se possa consertar. Talvez seja um grande desafio para o Dr. Bacamarte, mas enquanto não se acha um tratamento, que pode começar com uma desintoxicação da maldade, acredito que estes deverão ser postos bem distantes da saída e com grossas grades circundando as janelas do prédio, tranquilizantes para cavalos e muita ajuda lá de cima.

Sem mais qualquer intuito de mais julgamentos, tampouco falsa modéstia, vou me esquivando de acrescentar mais coisas. Nem sei se o doutor virá e se, vindo, dará jeito. Então, para os que acreditam em Karmas e coisas do gênero, é aprender a lidar com isso deixando passar o tempo para não encontrar com esses loucos no futuro, de novo. O que já é uma boa saída.

E espero que esse futuro possa ser efetivamente conjugado no tempo certo.

Pois eu irei votar numa urna eletrônica, com a tecnologia que mereço e ao lado da ciência, perto da evolução da verdade e de outro governo.

Nada do que fica para trás terá serventia a não ser como alavanca para o presente que estará no futuro.

Sim, vamos ‘voltar para o futuro’, sem pensar no passado que o presente de hoje simboliza

e que espero, não volte nunca mais.

Kawer



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