Crônica Avacalhada

É uma história conhecida. Passada por muitas gerações. Certamente você que está lendo já a ouviu em algum lugar…

Mas como toda história contada e passada de boca em boca aumenta sempre um ponto e subtrai uma vírgula, eu vou contar do meu jeito:

Francisco era um homem simples do povo, trabalhador e muito bom. Mas ele estava muito triste e cansado, pois em sua casa estava havendo muito conflito. Era o tempo todo discussão. Ora ele com a mulher, ora ela com os filhos, estes com o pai, ou entre eles, os filhos. Enfim, uma desarmonia completa, muita disputa, muitos lados e interesses contrários.

Certo dia, Francisco ouviu falar de um grande e sábio mestre que vivia no alto de uma montanha. Muitos o conheciam e diziam que ele ajudou muita gente.

Então, Francisco decidiu ir procurá-lo. Saiu mais cedo de casa e lá foi ele até o alto daquela montanha que lhe indicaram. Carregava dentro de si uma esperança muito grande de que aquele mestre o salvaria.

E assim foi. Ele encontrou o mestre sentado confortavelmente numa cadeira, em sua varanda. Um semblante tranquilo, de muita luz e paz. E Francisco foi se apresentando:

– Com licença, Mestre, eu vim lhe pedir ajuda. Não suporto mais a situação em que vivo dentro de casa. É discussão o tempo inteiro. Um puxa para um lado, outro para outro, eu mesmo já estou sem paciência. Ninguém se entende… Estou a ponto de fugir, sumir… mas não posso… preciso encontrar uma saída!

O Mestre olhou aquele homem com muita atenção e depois de refletir um tempo, falou:

– Pois muito bem. O senhor parece um homem bom e de fé. Eu vou lhe ajudar. Mas deve fazer exatamente o que vou lhe dizer: pegue parte das suas economias, compre uma vaca e a coloque dentro de casa. Mas atenção! Tem que ser exatamente como estou lhe dizendo: dentro de casa!…

Francisco achou aquilo muito estranho. Mas quem era ele para argumentar com um homem tão sábio e que ajudou tanta gente?

Em casa…

-Mas que palhaçada é essa Francisco?! Essa vaca dentro de casa!? Você agora enlouqueceu de vez?!! Era só o que me faltava!!

– Calma Berenice, confia em mim. Estou fazendo isso para o nosso bem… só confia.

Só que a coisa não ficou muito bem, aliás, nada bem. A vaca era um estrupício de tão desajeitada e estúpida. Derrubava as coisas, parecia até que tinha tino para escolher as melhores coisas da casa para aniquilar. A mulher brigava com Francisco, mas este tentava lhe acalmar e, no final, ela acabava cedendo. Via que a fé do marido era tão grande que ela até se comovia. “quem sabe essa vaca não tem algo de mágico, sei lá…” dizia ela para ela mesma, mas os problemas continuaram e parecia que iam piorando…

 Mestre, sou eu aqui de novo. Parece que não tá resultando não…

– Compreendo, meu filho…. mas tenha fé… já que não está se resolvendo com uma vaca, você vai escolher mais duas e colocar uma em cada cômodo… dentro de casa.

Francisco arregalou os olhos.. Ele não podia acreditar!!! Mas agora também decidiu ir até o fim. Homem determinado que era, não ia desistir. Mestre é mestre. Não há o que se questionar!

Sei que a história está ficando comprida, mas mais comprido ainda foi o sofrimento daquela família.

É que com as três vacas, em pouco tempo, o caos se instalara. Os filhos choravam, gritavam, xingavam. A mulher adoecera de tanto sofrimento. Não tinha força sequer para mandar internar Francisco num hospício, pois agora tinha certeza que ele tinha enlouquecido. O dinheiro foi todo com as vacas e a a comida que já era pouca, as vacas avançaram. Para a família nada sobrava. E quanto mais comiam, mais estragavam. E era merda por todo o lado. Uma catinga que nem te digo. Os outros animaizinhos, mais frágeis, da casa foram todos exterminados, ou por fome, ou porque as vacas eram brabas… um sofrimento inimaginável!

Francisco perdeu a cabeça e, dessa vez, montado na ira, foi, junto com a mulher e os filhos, em passeata, tomar satisfação com o tal mestre. Deixaram as vacas sozinhas em casa (também, eles já nem conseguiam entrar lá direito, as vacas já não deixavam). Quando chegou foi logo esbravejando:

– O que VOCÊ (veja, nem mestre mais o chamava) quer afinal!? Destruir minha família? Minha casa está caindo aos pedaços! Quase em ruínas! Merda pra todo lado! Tudo fede! Estamos ficando doentes! Não temos nem mais comida! As vacas só trouxeram desgraça pra dentro de casa!!

O mestre, baixou a cabeça humildemente…

-É…. parece que foi uma escolha errada. Talvez seja melhor tirar as vacas. O mais rápido possível, antes que elas acabem com a casa.

Francisco bufou… contou até três para não esmurrar o ‘farsante’, mas diante daquela imagem tão pacífica, pegou na mulher e nos filhos e voltou para casa Antes passou no celeiro, pegou na enxada, sua ferramenta de trabalho, pediu ajuda aos vizinhos e com muito custo conseguiram espantar aquelas vacas para que corressem para bem longe, pois nem a carne, nem o leite delas, a família queria.

No dia seguinte, começaram a arrumar, limpar as porcarias. Os filhos até faltaram a aula para ajudar. Berenice conseguiu uns ingredientes com os vizinhos que se prontificaram a doar e preparava uma aromática refeição.

E Francisco… estava consertando as janelas quando parou de repente… parou para assistir aquilo ali à sua frente, pausando os olhos em todo aquele cenário…devagar. Respirou fundo, soltou um longo suspiro e desabafou mentalmente…

Desculpa mestre…

E obrigada….

PS: Este é um conto há muito contada. Qualquer analogia a fatos concretos e atuais é por conta da criatividade de interpretação do leitor.



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