COMPLEXO DO ALEMÃO TEM UM FILÓSOFO, NILO DEYSON MONTEIRO CONTA COMO É O DIA A DIA NA FAVELA DA QUAL ELE FOI CRIADO.

Aqui eu não usarei de filosofia, apenas falarei sobre o espírito real dentro da favela e o que é ser morador da favela.

” Amigo moro na favela sim senhor, e não tenho vergonha de lá viver, nós somos pobres mas também temos direito, de ser um povo satisfeito e sem sofre.  Enquanto se come bem na casa do bacana, o pobre agradece à DEUS quando tem pão com banana, e a elite escuta isso é diz que é exagero, mas não vive o dia a dia a beira do desespero.”

Caro leitor, aqui eu pretendo mostrar à todos vocês, como é a vida dentro da favela, observando minha experiência de vida no Complexo do Alemão, onde eu fui criado. Não obstante, terei o cuidado de não generalizar os acontecimentos, mesmo por se tratar de uma experiência pessoal, ciente de que cada comunidade terá sua realidade particular, diferente obviamente da minha. Então vamos começar.  Boa leitura.

A vida no Complexo do Alemão sempre foi dinâmica. Eu, particularmente, desde minha infância jogava bola na rua 2, famoso lugar do morro da Alvorada dentro do Complexo do Alemão, e adorava correr descalço na rua de barro, quando chovia o futebol pegava fogo, todos na rua brincando. Fui criado solto, corria os 4 cantos da favela. Cresci ouvindo funk e pagode. As ruas da favela sempre cheias, animadas. Desde muito novo eu ia para os bailes funk na Grota, na Nova Brasília, na Fazendinha e na Canitá. Os bailes funk na Grota eram os meus preferidos, no Largo do Bulufa. Entre 1988 à 1994, eu e minha irmã Schirley Monteiro Pessanha Martins, dançavamos caipira, ou seja, festa de São João, arraia. Nesse tempo, participavamos de uma quadrilha de festa junina chamada de ” coração da alvorada”, onde tínhamos os professores Valdir e Rogério da Grota.

Com o passar do tempo, infelizmente aumentou a violência, onde ocorreram diversas situações internas na comunidade das quais, por ética e respeito aos meus amigos e a lei da favela, não convém falar, afinal, verdade é para ser dita, segredos para se guardar. O fato é que ocorreram situações que mudaram completamente a configuração da comunidade. As festas juninas ou julinas que existiam na rua do, bem como no loteamento e no morro do Adeus, terminaram em 1994. Tínhamos uma favela na época onde tudo era muito simples. A favela sempre foi cheia, de noites de ruas lotadas. Afinal, são mais de 900 mil moradores no CPX, ou seja, no Complexo do Alemão, logo tínhamos uma favela dinâmica, com diversos lugares para se divertir, desde os locais de forró, como o forró do poroca, frente a rua 2 até 1994,  o forró do cheiro, no coqueiro, até 1995, o forró da nicinha no loteamento, até 1998 e o forró da calcinha molhada, no Largo da vivi, até 2005.

Tínhamos os pagodes em alguns lugares como por exemplo, o pagode do Walmir no coqueiro, o pagode do inferno verde, o pagode da Grota, sem falar dos lugares no alemão e no morrão.

Os bailes funk são e foram os lugares mais frequentados pelos jovens e adultos, entre os lugares de baile funk, destaco os que eu frequentei desde criança, como os bailes funk da Grota, da Nova Brasília, da Fazendinha, da Canitá, da Relicário, da Central, da Vila Cruzeiro, do Coqueiro, a antiga Cananga e o da R2 CPX.  Sem falar dos antigos concursos de galera onde íamos em bonde, geral descia para o antigo Chaparraus, Quadra de Olaria e nos carnavais da quadra da Imperatriz onde rolava funk e samba.

Lembro-me de quando soltava pipas na laje, na casa que eu morava na rua 2 no alto do Morro, também dos tempos de pião, de bola de gude. Brincava de pique pega, de garrafão, de muitas outras brincadeiras típicas da época na favela. Como em grande parte das famílias, nós passávamos necessidade, muita das vezes eu e meus colegas estávamos sempre nas ruas para não ficar dentro de casa. Fui criado solto, sem medo de nada, mesmo em dias de intensos tiroteios, algo comum quase que diariamente, não arredavamos os pés das ruas, sempre pulava um ou outro muro para fugir dos tiroteios, depois que passava, continuava brincando nas ruas com os colegas. Por diversas vezes, eu falava para minha mãe Rosane Monteiro do Espírito Santo, que eu iria jogar futebol no campinho da rua 2 ou no loteamento, parte de baixo da favela, parte nobre da favela, de fato eu ia, tanto no campo do loteamento quanto no campo do gordo, porém, por vezes só com 1 biscoito trakinas, eu e alguns amigos pensávamos o ônibus 292 na Nova Brasília, soltava na Leopoldina e pegavamos o 461 para Ipanema, e íamos sem passagem para as praias, até para Copacabana por diversas vezes pensávamos bem cedo o 474 na Nova Brasília, única vez que ele passava na época, pulavamos a roleta e íamos parar nas praias. Pouco eu parava em casa, era o dia e a noite nas ruas. Como já falei em uma entrevista para Academia Pedralva Letras e Artes, vídeo que está no canal YouTube Nilo Deyson e na página do Facebook Academia Pedralva Letras e Artes, eu falei que eu tinha sido um péssimo aluno na escola, fui estudar muito tarde, no Colégio Domingos Bebianno, em inhaúma, onde repeti de série 3 vezes, 2 na antiga terceira série e uma na quarta série. Tive boas professoras como Dona Iara, Jussara e Inês, porém fui péssimo aluno, eu matava aula quase todos os dias, pulava o muro para ir jogar bola.  Desisti de estudar muito novo e acabei seguindo caminhos obscuros que me trouxeram um atraso de vida considerável, pois só consegui sair aos 21 anos, depois de ter tido um problema de saúde de sopro no coração, devido ao excesso de coisas erradas que eu fazia na juventude. Claro, depois pela misericórdia de Deus me recuperei através do trabalho da Igreja Universal do Reino de Deus, onde fui muito bem cuidado e depois de alguns an6me tornei obreiro dela, e a partir de outras situações dentro da instituição que me queria no futuro como um pastor, me colocou no IBURD, onde depois por conta de questões internas da instituição, fui transferido para minha cidade natal, Campos dos Goytacazes.

O dia a dia na favela é maravilhoso, muita simplicidade, música de funk, pagode, samba, cerveja, zoação e muita verdade. Aprendi na favela que somos o certo pelo certo e não aceitamos covardia, não é qualquer um que chega e ganha a moral de cria. Tenho orgulho de ter sido criado na favela.

Tenho grandes amigos das antigas no Complexo do Alemão, e quero registrar os nomes de alguns deles, principalmente os da R2, os crias, entre tantos estão: Bolinha, Vinicius15, Tangará, Beto, Jonathan, Ziberio, Chiclete, Mokochoke, Negada, Dinho, saudoso Bruninho G3, Kakalinho, Dudu do lote, Duda, Vick, Robinho, Nenem, Alex, e tantos outros. Sem falar das relíquias, pessoas idosas e dos antigos amigos já falecidos.

Na favela é simplicidade, pés descalços, sorriso no rosto e as vezes lágrimas que escorrem de um ou outro sentimento. Se é violento viver na comunidade?  Uns dizem que sim, outros que nem tanto, eu, particularmente, penso ser natural, pois é questão de costume, saber sobreviver. Para sobreviver em uma comunidade, deve-se seguir alguns requisitos como por exemplo: o respeito, ter olhos e não vê, boca e não falar, ter o espírito de união e patriotismo no sentido de querer defender a paz da própria comunidade. Evitar confusão, não ficar de conversa com os azuzinhos, nem com os periquitos quando eles aparecer, tão pouco com os faca-na-caveira, pois isso é um erro gravíssimo. Para se ter uma vida simples e feliz na favela, basta viver em paz sem se envolver com nada que não seja da sua conta. Enfim, não é que a favela seja violenta, pois a violência foi criada pelo sistema, basta ler sobre a história, basta ler sobre o início das favelas no Rio, o significado e os motivos que isolaram a população das favelas da população dos bairros nobres. Por exemplo, o Leblon é um dos bairros mas nobres do Brasil, no entanto, aos pés do Vidigal, uma realidade com diferenças gritantes entre moradores da favela e da baixada, aqui no caso, ambos na zona sul. Portanto, cabe você amigo leitor, ler sobre a história das favelas e terá uma noção maior do assunto.

Voltando ao Complexo do Alemão, agora para finalizar, tenho uma grande admiração pela comunidade onde eu cresci, e como sabemos, mesmo havendo violência, também há samba, pagode, funk, louvores, fé, simplicidade e esperança. Aquela mãe que estende roupas no varal, o filho que solta pipas na laje, o pai de família que toma sua cerveja no bar, tudo coopera para a diversidade dentro de uma favela. Quem não se lembra das viradas de ano com muitos fogos e tiros desde a Grota até à fazendinha? Pois bem, quem não se recorda das manhãs de balões nos céus em festivais de balões? Sem dizer dos tempos de festa junina ou julina, bem como os dias de folia de reis na favela? Brilha favela. São muitas as memórias, de coisas boas e ruins, porém, aqui não falarei dos momentos rios e tensos da história do Complexo do Alemão, que são muitos, muitos mesmo, porém, quero exaltar as qualidades da favela, o som alto nas ruas, as pessoas nas ruas, a zoação entre os amigos nas esquinas, os dias de campeonato da favela nos Campos do seu Zé, Loteamento, Canitá, Central e outros, sim, campeonato da favela onde o coro come, o bicho pega, e no final de tudo, rola a cerveja e o churrasco; aliás, o churrasco é algo típico da favela, seja nas lajes, nas esquinas ou nos bares.

Sem falar dos dias de jogos no Maracanã, quanta saudade das tardes de domingo, onde junto da 14°RG, da Raça Rubro Negra, torcida organizada, íamos juntos no ônibus 711 e a Jovem Fla do 5° pelotão no ônibus 629, todos à caminho do Maracanã. Os ônibus por vezes, infelizmente, eram depredados, janelas de emergência eram arrancadas para os torcedores se pendurarem nas janelas e no teto, surfando até chegar ao Maraca. A favela em dias de Maracanã, amanhecia diferente, cheia de bandeiras e camisas pelas janelas, principalmente em dias de clássico. Aliás, particularmente, eu fiz parte da torcida organizada Raça Rubro Negra, e por 8 anos estive em diversos jogos, vi Júnior jogar, vi Marcelinho carioca, Djalminha, Romário, Edmundo e tantos outros monstros do futebol no Maracanã, sim, sem falar dos estádios: Da Gávea, de Conselheiro Galvão, da Rua Bariri, e Engemhão, lugares que também estive por muitas vezes, sem falar de outros.

Para finalizar meu artigo, a favela do Complexo do Alemão é incrível, e sugiro que pesquisem sobre o motivo de seu nome ser Complexo do Alemão, antes chamado de Serra da Misericórdia, pois assim você terá uma noção da história do CPX. Quanto ao fato de eu ser filósofo, e um amigo me pediu para escrever sobre o CPX pelo carinho que tenho por ela, ele me pediu para colocar no final uma filosofia de minha autoria, e vou por sim, porém, quero que depois vocês possam conhecer meus artigos no Google, ao pesquisarem sobre Filósofo Nilo Deyson Monteiro Pessanha. Como sou cria do CPX, na rua 2, morro da Alvorada, porém, agora moro na minha cidade natal, Campos dos Goytacazes, quero deixar uma filosofia minha abaixo.

” Sei bem dos problemas sociais que afligem minha favela do Complexo do Alemão, contudo, existe uma saída para cada ser, não para todos, pois seria uma tragédia para o sistema se todos encontrassem a saída. A saída é o individual ingresso ao campo da literatura, empregando a consciência de que a educação transforma o ser, então aquela saída, um dia será a entrada para o êxodo de outros.”

Filósofo: Nilo Deyson Monteiro Pessanha



FILÓSOFO, ESCRITOR, POETA, COLUNISTA & PALESTRANTE. Fundador da Filosofia da imparcialidade participativa. Autor do livro de Filosofia Todos os Corações do mundo, e do Livro O Teatro da vida e a interpretação das coisas, quem nos garante ser verdade das coisas. Membro de diversas instituições culturais como por exemplo, é imortal acadêmico da Academia de Letras do Brasil seccional Campos dos Goytacazes, é imortal Acadêmico da Academia Pedralva Letras e Artes, ocupante da cadeira n°17 , Fundador do NAISLA, Núcleo Acadêmico Italiano di Scienze, Littere e Arti. Membro de diversas instituições. Nilo Deyson Monteiro participou de diversas antologias, periódicos e muitos de seus trabalhos acadêmicos estão no Google ao pesquisar Filósofo Nilo Deyson.

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