Camaleão do Escher

Sabe aquela coisa, que uns chamam de coincidência, outros, de sinais do destino? Pois é, acho que nunca saberemos desvendar quando é uma coisa ou outra, mas quando a tal coisa está de alguma forma inserida num contexto específico, como esse que irei descrever, é no mínimo curioso.

Vou tentar explicar.

Hoje, no café da manhã, minha filha deixou um livro na mesa e disse para eu ler. Nada mais instigante do que este fato por si só. Acrescente-se a isso o próprio livro, e vou lhe dizer o porquê: ‘A Grande Arte de ser Feliz’ era o título. De cara intuí ser de autoajuda. Um gênero que, confesso, não me atrai. Não porque ache que não precise. Quem não precisa de ajuda num mundo como este? Mas é porque no meio das milhões de obras desse gênero há muita balela, muita conversa para boi vender, não só esperança vazia, mas o próprio livro.

Só que este era de Rubem Alves, contista, cronista, ensaísta, poeta, pedagogo, filósofo, teólogo e psicanalista, então não dá para pensar ser mais uma teoria perdida. Passei até a desconfiar que ele, o autor, espertamente, havia feito a escolha do título de propósito. Para atrair os amantes e desafiar os críticos do gênero, que assim como eu, se jogariam para dentro empurrado pelo abismo da curiosidade.

Logo de primeira, digo, página, percebi que o título prometia muito menos do que o autor tinha à dizer. O gênero crônica já facilitava deveras a leitura, deixando-a ainda mais leve, como deve ser, já que o intuito é mostrar ‘a arte para ser feliz’. E assim, o tema já desde o início corria solto, livre, discorrendo sobre uma infinidade de combinações simples de felicidade.

Uma das crônicas, no entanto, me obrigou a fazer uma pausa na leitura. Tive que pesquisar. É que Rubem Alves, nela, desafia e quase intima o leitor a pôr os olhos nas obras de um artista plástico especifico, que eu, confesso, sem vergonha, que não conhecia. Escher é seu nome. Fui então pesquisá-las. O quê? as suas ‘imperdíveis’ gravuras.

E Rubem Alves ainda enfatiza isso dizendo que olhar para elas é uma das coisas que se deve fazer na vida antes do juízo final, acrescentando que isso nos será cobrado na altura.

E foi aí, na pesquisa, que encontrei a coincidência, ou a outra coisa.

É uma gravura. Hoje sei que se chama “smaller and smaller”(cada vez menor). Só que o detalhe é que eu a carrego comigo há mais de trinta anos na mala de minha vida. De um lado para o outro. No meio de diversas mudanças, tanto de casas como até de países. Para onde vou a penduro numa parede. Já troquei molduras, mas não descarto a gravura. Já devem prever que, apesar disso, eu não sabia quem era o autor. Simplesmente, gostava. Achava incrível o que via nela à distância e o que via pequenino, de perto, lá dentro, no centro.

Olhava e dizia : ” – É infinito. Quanta paciência para fazer isso.

Não me aprofundei mais durante todos esses anos sobre a obra.

Exceto, até este momento. Pois agora, no atual contexto, além de infinito, matemático, a gravura é uma das mencionadas nesse livro. Então fui além e pesquisei também o significado dos camaleões que estão na gravura. E eis o que achei: O camaleão simboliza mudança, flexibilidade, capacidade de adaptação e evolução pessoal.

É que o infinito agora ganhou bem mais significado. Adquiriu rumos de uma promessa de felicidade. Assim o destino o quis. Simplesmente não deixei ser uma mera coincidência. A felicidade é minha, escolhi desse jeito.

E mais! Tenho grande chance de chegar ao juízo final com pelo menos um dever cumprido. E anos à fio e em diversas paredes.

Portanto, admito que ser feliz é uma arte e Rubem tinha razão

Está naquilo que escolhemos ver.



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