Bolha Especulativa e Pirâmide Financeira: qual a diferença?

Bolha especulativa e pirâmide financeira são termos que ocasionalmente aparecem nos noticiários e artigos por aí. Há algumas semelhanças entre os dois, mas há muito mais diferenças e, o mais importante, há uma diferença crucial: enquanto um deles é um crime, o outro é apenas um fenômeno natural decorrente de uma situação específica do mercado. Nesse artigo vou explicar um pouco o que é cada um deles para que não haja confusão e ninguém acusar de um crime alguém que está apenas aproveitando uma oportunidade.

 

O que é uma bolha especulativa?

A bolha especulativa é decorrente de uma situação específica do mercado em que a conhecida “lei da oferta e procura” provoca algumas consequencias um pouco diferentes do usual. E antes de continuar convém esclarecer que a lei da oferta e procura não é uma lei natural, como a lei da gravidade, nem uma lei aprovada pelo legislativo como a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados). Por isso o uso das “aspas” inicialmente. A lei da oferta e procura é uma teoria que procura explicar as variações de preço dos produtos e serviços durante o tempo no decorrer da dinâmica natural do mercado.

Segundo a lei da oferta e procura, os preços dos produtos e serviços é resultado do equilíbrio entre a oferta e procura desse produto ou serviço. Essa “lei” é bastante intuitiva e fácil de entender, mas o que nos interessa aqui é a parte da demanda dessa lei, que é ainda mais fácil e intuitivo, pois é muito mais próxima do nosso cotidiano. Afinal, poucas pessoas vendem produtos ou serviços cotidianamente, mas todos nós somos consumidores, ou seja, demandantes, e frequentemente tomamos decisões de comprar ou não baseadas no preço. Por isso é muito natural pra todos nós entender que quanto maior o preço, menos pessoas compram, ou sejam,menor a demanda. Inversamente, quanto menor o preço, maior a demanda.

Na bolha especulativa essa lógica falha devido à especulação financeira, por isso o nome de “especulativa”. Nesse caso, o que ocorre é que  quanto maior o preço, maior a demanda. Isso porque em situações normais,  a demanda de qualquer produto ou serviço é formado por uma maioria de demandantes “reais”, que compram para o seu uso (para consumo ou para usar como matéria-prima ou insumo para outra coisa) e um minoria de demandantes “financeiros” que compram acreditando que o preço irá subir e ele poderá vender com algum ganho. Os demandantes reais são os que compram menos à medida que o preço sobe. Já os financeiros aumentam a compra se acreditam que o preço irá subir, pois assim ganharão mais.

 

Como os demandantes “reais” são maioria, o comportamento global do mercado em situações normais é que quando o preço aumenta a demanda diminui. No entanto, quando está ocorrendo uma bolha especulativa, a maioria dos compradores são demandantes “financeiros” e por isso o comportamento global do mercado passa a ser um aumento de demanda à medida que os preços aumentam. Com isso os preços aumentam continuamente, “inflando” como uma bolha, por isso o nome “bolha especulativa”.

Porém, se você já observou uma bolha de sabão se formando, sabe que ela vai aumentando até estourar. É isso que acontece também com as bolhas especulativas, afinal nenhum preço irá aumentar até o infinito. Em algum momento os especuladores irão achar que os preços estão altos demais e que não subirão mais ainda. Então começam a vender e, quando o preço começa a cair, mais e mais pessoas vendem, acelerando tanto a queda de preço que a bolha “estoura” e o preço despenca.

Apesar de uma bolha especulativa poder causar crises econômicas quando estouram, não há nada ilegal nelas e existe realmente um oportunidade de ganhos elevados, embora o risco também seja grande. Enfim, o importante é sempre lembrar que bolhas especulativas são o resultado de uma situação específica que pode acontecer em qualquer mercado e não são ilegais.

 

O que são pirâmides financeiras?

As pirâmides financeiras são criadas por pessoas mal intencionadas com o intuito de tirar dinheiro dos outros. No Brasil a pirâmide financeira é considerada um crime contra a economia popular, tipificada no artigo 2°, inciso IX, da Lei 15.271. Nas pirâmides financeiras o ganho do criminoso vem da entrada de mais e mais pessoas que entram com o seu dinheiro (e que pode ou não envolver a compra de algum produto). Normalmente funciona em níveis e a pessoa que entra no esquema, além de pagar o valor determinado tem que atrair outros para o esquema, para que assim possa “subir de nível”.

Por exemplo, a pessoa inicial que cria o esquema atrai duas pessoas para entrarem e pagarem pra ela. Essas duas pessoas tem que atrair mais duas, totalizando quatro pessoas já no terceiro nível. Cada uma dessas quatro tem que atrair mais duas, somando oito no quarto nível, como ilustra a figura abaixo.

Como o número de pessoas que precisam entrar para manter o esquema funcionando aumenta rapidamente, a pirâmide logo entre em colapso, pois não conseguirá atrair o número de pessoas necessário. Claro que para ser rentável, cada pessoa tem que atrair muito mais do que duas pessoas, o que faz com que a pirâmide chegue ao seu colapso muito mais rapidamente. No exemplo da figura, oito pessoas tem que entrar no quarto nível para manter a pirâmide. Mas se cada um tiver que trazer mais 10 pessoas, por exemplo, em vez de duas, em vez de duas, no quarto nível já serão necessárias 1.000 pessoas!

Mas o mais importante aqui não é a inevitabilidade do colapso da pirâmide, mas o aspecto criminoso dela. Novamente, para deixar bem claro, pirâmide financeira é crime! As bolhas especulativas são ruins para a economia, mas não são crime. Quando elas ocorrem o governo tenta resolver o problema “desinflando” a bolha lentamente, antes que estoure, evitando assim a crise econômica que sempre vem como decorrência do estouro de uma bolha especulativa. Bolha especulativa é um problema para o Ministério da Economia e para o Banco Central enquanto a pirâmide financeira é um problema para a polícia federal.

Espero que com esse breve artigo não tenha ficado mais dúvidas quanto ao assunto.

 



Bacharel em Ciências Econômicas - Universidade Estadual de Campinas. Mestre em Economia Social e do Trabalho - Universidade Estadual de Campinas. Presto serviços de elaboração de textos para pessoas físicas e jurídicas.

Diga-nos o que achou do post: