Bitcoin é dinheiro?

O Bitcoin existe a relativamente pouco tempo e ainda é um mistério para muitas pessoas. Por ser um criptomoeda, a maioria das pessoas associa o Bitcoin à moeda e, consequentemente, ao dinheiro. Mas Bitcoin é mesmo dinheiro? Não existe uma resposta definitiva sobre isso, mas leia até o final e você poderá tomar a sua própria decisão.

Como tudo na Ciência Econômica, o dinheiro não é algo natural, e aqui digo natural como algo que não seja criação humana, algo que existe na natureza como resultado das forças naturais, como o oceano, as montanhas, a luz solar, a força da gravidade, etc.

Então, ao contrário dessas coisas que eu citei, o dinheiro é uma criação humana, por isso não é algo natural. Mas o dinheiro também não é um “invento”, digamos assim, como o automóvel ou o telefone. Ninguém “inventou” o dinheiro. Ele foi o resultado de um longo processo de evolução que durou centenas de anos em que as pessoas gradualmente iam adotando novos meios de facilitar as trocas de bens entre si e, em algum ponto desse processo, esses meios já estavam tão difundidos nas sociedades que foi possível estudar melhor o fenômeno para entender suas características e dar um nome a ele: o dinheiro.

ORIGENS DO DINHEIRO

Então, voltando muito no tempo, para o início desse processo, temos que ir até o período em que já existia os agrupamentos humanos em que havia uma especialização entre as pessoas, com alguns que se dedicavam à caça, outros à coleta de vegetais, uns à pesca, outros à confecção de vestimentas, alguns faziam armas, alguns plantavam, tinham aqueles que construíam barcos e assim sucessivamente. Com essa especialização de atividades, cada pessoa só produzia uma coisa específica e ninguém conseguia viver apenas consumindo essa única coisa que produzia. Por isso cada uma dessas pessoas tinha que trocar a única coisa que ele sabia fazer por todas as outras coisas que ele precisava.

E qualquer um que já tenha trocado algo na vida, ou pelo menos tenha tentado trocar algo, sabe que não é uma coisa das mais fáceis de se fazer. Você tem que achar alguém que tenha o que você quer e, ao mesmo tempo, queira o que você tem. Além disso ainda tem o problema de acertar os termos de troca. Hoje em dia entre os bens de consumo mais desejados, de modo geral, estão os smartphones e os notebooks.

Então, para ilustrar, imagine alguém que tenha um smartphone e queira trocar por um notebook. Talvez não seja tão difícil achar um outro alguém que tenha um notebook e que queira trocar por um smartphone. Só que não pode ter volta de dinheiro pra nenhum lado. As duas pessoas têm que concordar com a troca nos termos exatos: o smartphone pelo notebook e mais nada. Aí já fica muito mais complicado conseguir a troca!

UM INTERMEDIÁRIO DE TROCAS

E essa é justamente uma das funções do dinheiro: intermediar as trocas! Mas estou me adiantando. Vamos voltar à linha do tempo da criação do dinheiro. Dado que é muito difícil haver essa confluência de interesses entre as pessoas para tudo o que elas querem trocar, uma solução que acabou por surgir naturalmente com o tempo foi usar alguma coisa que era mais aceita como intermediária. Se é uma coisa que todo mundo aceita, é mais fácil eu trocar o que eu tenho por essa coisa e depois trocar essa coisa pelo o que eu quero. Mas que coisa é essa? Qualquer coisa que era muito aceita naquela sociedade e naquele
período.

Para essa função já se usou peles de animais, sal, metais preciosos, gado, penas, tabaco, enfim, uma infinidade de coisas. A única regra aqui é que tinha que ser algo que todo mundo aceitasse para que efetivamente essa coisa pudesse servir como intermediária de trocas. E essa é a única função do dinheiro. Um intermediário de trocas. Lembre-se: na verdade ninguém quer dinheiro. O que todo mundo quer é o que o dinheiro pode comprar, ou seja, o dinheiro não é um fim em si mesmo, mas um meio.

OUTRAS FUNÇÕES DO DINHEIRO

Se você procurar em livros textos de economia ou pesquisar na internet você provavelmente vai achar mais duas funções do dinheiro que são as seguintes: unidade de conta e reserva de valor. Mas essas duas funções são, vamos dizer assim, derivadas da função de intermediário de trocas, porque são decorrentes dessa.

Eu não tenho a mínima ideia de quantos quilos de arroz eu posso trocar por um cilindro de oxigênio de mergulho, nem quantos pneus são necessários dar em troca de um torno mecânico de pequeno porte. Nem eu nem ninguém sabe, porque essas trocas não são comuns. Mas tudo isso pode ser trocado por dinheiro: o quilo de arroz pode ser trocado por R$ 35, o cilindro de oxigênio por R$ 1.300, o pneu por R$ 330 e o torno mecânico de pequeno porte pode ser trocado por R$ 4.000. Agora eu tenho uma ideia dos valores relativos de cada item que eu falei, ou seja, o dinheiro serviu como unidade de conta.

E a função de reserva de valor, decorre naturalmente do fato de que sempre posso trocar o dinheiro pelo que eu preciso. Ou seja, eu não preciso trocar o dinheiro assim que estiver com ele na mão. Posso trocar amanhã, daqui a um mês ou depois de vários anos, porque o dinheiro sempre será aceito. O valor dele permanece o mesmo, independente de quanto tempo se passou. Ou seja, o dinheiro não perde valor pelo desgaste, como acontece com um automóvel ou uma casa. Claro que tem o problema da inflação, que faz o dinheiro perder valor, mas isso é um assunto para outro artigo.

AFINAL, BITCOIN É DINHEIRO?

Então agora que sabemos quais características algo precisa ter para poder ser chamado de dinheiro, podemos dizer que bitcoin é dinheiro? Bom, se você quiser chamar de dinheiro, fique à vontade. Se o Bitcoin atende pra você a função de unidade de conta, reserva de valor e, principalmente, de intermediário de trocas, então pra você Bitcoin é dinheiro. Mas pra mim não é. Isso porque eu não consigo usar o Bitcoin como intermediário de trocas: o supermercado que eu vou não aceita Bitcoin como pagamento, nem o açougue, nem a escola dos meus filhos. Nenhum dos meus gastos eu consigo pagar com o Bitcoin, ou seja, ele não me atende como intermediário de trocas, por isso, pra mim Bitcoin, não é dinheiro.



Bacharel em Ciências Econômicas - Universidade Estadual de Campinas. Mestre em Economia Social e do Trabalho - Universidade Estadual de Campinas. Presto serviços de elaboração de textos para pessoas físicas e jurídicas.

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