BBB21 E A REALIDADE

A polêmica e as injustiças chegaram ao entretenimento. A palavra da moda é cancelamento. Claro, apesar de críticas, o programa que a cada ano ganha mais e mais audiência é o BB21. Cancelamento em cima de cancelamento, podemos verificar que o grande cancelador dessa edição (ou talvez de todas) é o diretor Boninho. Sim, esse mesmo diretor que deixou a “Deus dará” um rapaz por mais de quinze dias sofrendo um massacre emocional. O que agrava mais a situação é a tentativa de justificar bullyng, pressão psicológica e toda a humilhação que o ex-participante Lucas passou com a desculpa de que tudo o que ocorreu foi por culpa dele, como pode tanta hipocrisia?

No início eram dezenove pessoas contra um e depois virou quinze contra quatro e o jogo foi tomando um formato de grande audiência. Dizer que um rapaz de vinte e quatro anos é o único responsável por toda a barbárie ocorrida durante o programa só demonstra a descaso para com o participante, objetivando apenas não ter o prejuízo comercial que poderia causar. E daí a justificativa é que o participante teria um problema com o álcool, o que o fez se desestabilizar durante o jogo.

Não foi a Karol com Cá dizendo que ele só poderia se sentar a mesa depois que ela comesse; ela não tem problema com álcool então ela está liberada para olhar para o Lucas e dizer durante uma das conversas com os participantes: não olha pra mim seu bosta. Ela pode, pois ela não tem problema nenhum com o álcool; Pra ela dizer para um rapaz já arrependido que depois de tudo o que ele fez, o que restava pra ele era apenas o merecimento dele limpar a bunda da galera, nada mais. Sempre nesses termos. Mas claro, ela não tem problema com álcool.

O Projota também não tem problema com álcool, deve ser por isso então que ele se sentiu no direito de fazer tudo o que fez com o Lucas. Pode trair descaradamente aquele rapaz que se apresentou como fã dele. O ídolo perseguindo desumanamente seu fã, realmente é algo avassalador. Se referindo ao mesmo com moleque, pivetinho, de “menor”- linguagem utilizada pela PM para caracterizar o menor infrator. Esse foi o tratamento dado a esse fã sem o menor motivo. O Projota pôde se unir ao Nego Di , preconceituoso, para dizer que o Gil não é preto, ele é sujinho, se esfregar bem… mas eles não tem problema com o álcool.

O Nego Di pode falar que a Tais é uma fruta pronta para ser chupada ou que se a Carla Dias dormisse perto dele ele tiraria o seu órgão pra fora. Mas está tudo certo. Porque quando questionados, são militantes, são pretos, e os outros deveriam pedir desculpas pois são brancos privilegiados.

A psicóloga Lumena, que certamente precisará urgente de um psiquiatra, como uma autoridade, convenceu o Lucas de que ele não era nada, fora os dedos apontados na cara das pessoas, onde a Carla Dias era uma branca privilegiada e “desbotada”. Ela não tem problema não é?

A famosa Karol pode chamar o Lucas de abusador em rede nacional e o sei lá se tão famoso Nego Di pode falar que o Lucas só defende vagabundo. São negros. São militantes. É isso mesmo?

A cada momento dentro daquela casa uma perseguição, discriminação, uma humilhação sem tamanho. Vimos um menino desestruturado. Ouvimos do Lucas, fora o primeiro dia que ele errou, realmente distorceu muita coisa, mas humildemente pediu desculpas e tentou por diversas vezes mudar. A confusão com a ex-participante Kerline que poderia ter sido resolvida de uma maneira pacífica, transformou-se numa tortura e de certa forma um gatilho em que ele começou a beber e a se desestruturar. Nos dias posteriores assistimos um Lucas tentando sobreviver.

“Eu tentei ser eu mesmo de mil formas, vocês me tirando, o que esse povo quer que eu mostre? Não faço nada certo. Se eu tiver que ganhar um milhão para ser como esse povo, eu não consigo ser, isso não é pra mim.” Ultimas palavras de Lucas no reality.

Pudemos ver ele pedindo ajuda para Lumena e a mesma dizendo que a escuta dela era muito cara. Ele insistiu e pediu apoio novamente e ela nem olha na cara dele. Mas isso pode.

E o plano estava todo armado. Seu ídolo Projota já havia cantado a bola dizendo que ele já estava desestruturado emocionalmente e que ele era magrelo, por isso com a fantasia do monstro seria quase impossível de atender o big fone.

Chegou a festa que ele estava encarando como se fosse sua ultima festa na casa. Num momento de desespero, pediu licença para beber e disse que iria curtir. Mais uma vez ele tentou já com o emocional em frangalhos, porque já tinha tentado de tudo. Ele estava feliz.  Encontrou um companheiro que lhe estendeu a mão, o Gil viu que tudo não passava de uma sacanagem e resolveu ficar do lado dos mais fracos o que virou um quarteto que o público acabou amando. Daí vem o beijo na festa, ah, mas ele é o Lucas e ele não pode beijar!

Curtir a festa é proibido, não pode beijar, não pode ser feliz. Isso não é preconceito já que foi praticado pela “militância”. Ali  eles ficaram pasmos pois para muitos dos participantes  era uma rasteira neles porque aquela cena ia repercutir de forma positiva e o Lucas iria conquistar o público LGBTQI+.E com isso, questionaram a sexualidade deles, a veracidade do beijo. Combinaram de falar que ele estava usando a causa para se sobressair. Que o Lucas era sujo, que usou o Gil.  Primeira providencia foi cercar o menino. Mais você não é o especial do rolê, então você tem que passar por uma aprovação “de quem se assumiu antes”.  Ah, mais o Lucas não tem boa intenção, não é pra valer. Foi isso que plantaram. Em seguida, foi só encheção na cabeça do menino. Porque você não é isso, aquilo, ele começou a r se achar tão errado, e encostado na parede chora dizendo que nunca mais terá amigos, que perderá o amor de seus pais, sua carreira está acabada. Era o fim pra ele. Ele estava reduzido ao nada pregado pela grande psicóloga. Cadê o diretor que foi dar colo pro Projota no confessionário? Porque não fizeram com o  Lucas a mesma coisa? Ah, ele tem problema com álcool não é mesmo?

E o jogo continua. Sujo. Com manipulações. Vida que segue. Tudo o que vejo nesse reality, apesar de muito criticado pelos metidos a intelectuais(duas coisas que não sou), é que os fatos que ocorrem lá são reflexos do que ocorrem aqui.

Me doeu e confesso que ainda me incomodo quando brincam com o modo de vida do fazendeiro Caio. Meu corpo chegou a estremecer quando os “militantes” concluíram que os brancos que ali estavam eram privilegiados. Eles não. Os brancos sim. Sobre o Gil ser ridicularizado porque os “poderosos da resistência “ não o consideraram preto. E o pior: por muitos dias me senti o Lucas aqui na vida real.

E quantos Lucas vivem massacrados aqui do lado de fora em nossa realidade. Quantos são silenciados em prol de uma “causa maior”, ou são julgados por não serem merecedores de chance alguma. Quantas pessoas sofrem pressões constantes para desistir?

Quantas manipulações sofremos durante uma vida, que muitas vezes chegamos a acreditar que somos inúteis e somos reduzidos a nada?! Quantos e quantos talentos em potencial nas mais diversas áreas se perdem ou desistem de viver por pura inveja, articulação ou maldade alheia?

Eles mataram o Lucas lá dentro. A diferença é que ele apenas saiu de um reality. Aqui na vida real, a maioria morre. Por depressão, acabado.

Que a gente comece a ter a percepção de se importar com a dor do outro. Pudemos assistir que não importa o quão nobre é a causa defendida, não importa se a pessoa é psicóloga, sempre haverá dois lados. Em se tratando de relações humanas, nunca há uma verdade inquestionável, nem uma vivência mais “válida” que a outra.

“ A injustiça que se faz é uma ameaça que se faz a todos”. O jogo continua. Assim como a vida aqui também. A diferença é que se nos calarmos, se permitimos, mais e mais Lucas sofrerão até se perderem em sua existência.



Pedagoga, Psicopedagoga, Folclorista, Escritora, Catireira- nascida e criada em Araçatuba, interior de São Paulo

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