Apneia Mental

Responda: qual é o ato mais importante que você faz para si mesmo/a durante o dia?

Pare. Pense. Já sabe?

Se sua resposta foi qualquer coisa diferente de ‘eu respiro’. Você precisa parar e puxar uma boa corrente de ar para esses seus pulmõezinhos. Parece um imperativo óbvio, mas a cada dia percebo que precisamos aprender a respirar.

Quando respiramos, o oxigênio que inalamos liga-se às hemoglobinas em nosso sangue. Então, é levado para todas as células do corpo a fim de ser usado no metabolismo celular. O processo de respiração pulmonar apenas acontece devido a dois movimentos respiratórios instintivos e primários: a inspiração, que garante a entrada do ar, e a expiração, que permite a sua saída.

Vou te contar o porquê dessa reflexão hoje. Recentemente, assistia um seriado na Netflix cujo participante se declarava um professor de respiração. Confesso que, até aquele instante, nunca havia ouvido falar a respeito de um profissional especialista em ensinar as pessoas a respirar e questionei qual a utilidade disso. Ao contrário do que pensei, a princípio, não havia relação necessária entre as funções desse profissional e a Yoga, que, até então, era a única prática de meditação e respiração que conhecia. Guardei essa informação em alguma gaveta da minha mente até a manhã de hoje. Ao telefone, conversava com uma amiga sobre as incertezas com as quais temos sido confrontados durante esse momento de pandemia e acabei desabando-desabafando sobre determinadas situações e seus efeitos sobre mim. A minha pitty-party rolava tranquilamente com tudo que tenho direito: sentimento de inferioridade, desânimo, frases que expressavam vontade de chutar o balde…enfim, o ‘pack tristeza’ completinho. No entanto ela resolveu não aceitar o convite e ainda me advertiu que devido à intensidade com a qual eu mergulho em meus projetos, eu preciso aprender a respirar para não me afogar. Imediatamente após desligar o telefone, a imagem do Técnico em Respiração, psicanaliticamente, retornou para mim e me fez parar  para respirar tanto literalmente quanto metaforicamente, no sentido de refletir sobre o que tenho vivido.

Ato contínuo: puxei fundo o ar e segurei… um, dois, três. Enquanto inspirava algumas coisas me vieram à mente, por exemplo, a falta de oxigênio no Estado do Amazonas que levou, segundo documentos obtidos pelo Ministério Público de Contas, 31 pessoas à morte em Manaus nos dias 14 e 15 de janeiro de 2021, quando a capital atingiu o ápice da falta do insumo. Praticamente me esqueci de soltar o ar ao lembrar desse fato. Voltei a me concentrar em minha respiração e inflei os pulmões novamente. Como é difícil escutar a própria respiração quando a nossa mente não para quieta. Nesse momento, as vozes em minha mente me diziam que eu não poderia esquecer de assinar os documentos no Sipac, verificar se eu havia consolidado e entregado os diários de classe, se não estava esquecendo alguma reunião, compromisso, consulta médica e se tinha pagado a conta de luz que não está mais no débito automático. Achei difícil o exercício. Será que tem como respirar em silêncio sem invocar uma chuva de pensamentos meteóricos em nossa mente?

As gestantes em trabalho de parto são lembradas constantemente que precisam respirar. Entre gritos de dor, contração e ansiedade realmente fico convencido  de que a mulher precisa ser multitarefas para conseguir respirar naquela hora.

Recordar os compromissos assumidos, ver as frustrações como cacos de vidro espalhados pelo chão, encarar a ansiedade nos olhos e simplesmente respirar me parece um exercício físico de exigências olímpicas. Mas não tem jeito. Não sobrevivemos sem respirar. Em tempos de Covid, entendemos perfeitamente o valor da respiração para a saúde do nosso corpo, mas estamos lembrando de seu valor para a saúde de nossa mente?

As cobranças têm sido cada vez maiores para todos nós: prazos, preocupações, dívidas, comprometimentos de saúde, despedidas forçadas, incertezas, mas se não respirarmos nos desgastaremos e nos afogaremos nesse Mar Pandêmico. Uma coisa é certa: não daremos conta de tudo o tempo todo e todos os dias. Às vezes vamos perder o fôlego. Nesses momentos, respirar é questão de saúde mental. De autopreservação. Se você chegou até esta parte do texto, provavelmente você tem precisado respirar fundo para não perder as estribeiras, não perder as esperanças ou jogar a toalha de vez.

. Sua mente precisa respirar; para isso, talvez, seja necessário mudar o foco, inverter algumas prioridades, recalcular algumas rotas ou revisar alguns planos. Para mim, que sou uma pessoa muito intensa, mergulhar de cabeça pode ser muito produtivo e animador, no entanto é vital voltar à superfície para recobrar o fôlego. Lembremos de respirar.



Possui graduação em Letras - Inglês pela Universidade Federal de Minas Gerais (2012). Pós-Graduação em TESOL Methods pela University of Oregon. Mestrado em Linguística Aplicada ao Ensino de Línguas Estrangeiras (UFMG); Doutorado em Estudos de Linguagens pelo Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (CEFET-MG). Seus interesses de pesquisas partem do viés crítico-social dos multiletramentos e das multimodalidades aplicados ao ensino de línguas; Letramento Visual Crítico e Educação Racial. Líder do Grupo de Estudos Críticos para as Relações Etnico-raciais (GECRE/CNPq). Autor do livro: Racismo Estético Decolonizando os corpos negros.

Diga-nos o que achou do post: