ANTES DA LÓGICA O ILÓGICO: Nietzsche segundo Nilo Deyson Monteiro

“Antes da Lógica, O Ilógico: Nietzsche e a Verdade Mística dos Pré-Socráticos” Pelo Filósofo Nilo Deyson Monteiro.

Caros amigos leitores, como de costume em meus artigos, trago hoje um trabalho de pesquisa que certamente contribuirá com sua formação intelectual. Ao final deste artigo, o amigo leitor terá algumas sugestões à seguir. Espero que gostem e leiam com atenção, anotando referências para quem for fazer pesquisas para se aprofundar no assunto.

Na Grécia Antiga, nos séculos VI e V a. C., período denominado por Nietzsche de “época trágica dos gregos”, os mitos e os valores da cultura homérica que exaltavam os deuses olímpicos e o glorioso herói épico foram profundamente questionados. Uma enorme crise acontecia: o desmoronamento da “montanha mágica do Olimpo” (NIETZSCHE, 1992). Apolo não consegue mais impedir a entrada de Dioniso, o deus do vinho e, sobretudo, do êxtase místico, e de seu companheiro, o sábio e pessimista Sileno, segundo o qual a vida humana é filha do acaso e do tormento.

De acordo com O Nascimento da Tragédia, a cultura homérica é uma “cultura apolínea” (NIETZSCHE, 1992) caracterizada por uma “fantástica exaltação da vida” (NIETZSCHE, 1992). O homem homérico é extremamente confiante e vive como se estivesse sonhando, olha o mundo através de um “espelho transfigurador” (NIETZSCHE, 1992), que o faz ver em todos os lados a presença dos magníficos deuses.

Convém esclarecer que Nietzsche (1844-1900) inicia sua vida filosófica com uma excelente bagagem adquirida durante sua juventude. Em 1869, aos vinte e quatro anos, ganhou o título de doutor honoris causa e foi convidado a assumir a cátedra de Filologia Clássica (ciência que faz um estudo crítico e sistemático dos textos clássicos, gregos e romanos) na Universidade de Basiléia, onde permaneceu até 1879. Estudioso e conhecedor da civilização helênica, ele a considerava o modelo a ser seguido por todas as culturas, a começar pela alemã. Durante os dez anos em que exerceu a docência, Nietzsche ministrou cursos e conferências sobre os primeiros filósofos gregos assim como redigiu diversos textos sobre eles.

Conforme os escritos do jovem Nietzsche, um brilhante professor de Filologia Clássica, o surgimento da filosofia, assim como o da poesia lírica e da tragédia, é fruto desse desmoronamento. Diz Nietzsche: “Eles (os filósofos) e a arte ocupam o lugar do mito que está desaparecendo” (NIETZSCHE, 2001). Em contraposição ao herói épico, a poesia lírica traz um “eu”, que ama e sofre com suas paixões e mazelas, e a tragédia apresenta no palco, por meio de personagens e do coro, o forte e sofredor herói trágico que, por força do destino, irremediavelmente, paga por sua desmesura (hýbris). E a filosofia? O que ela critica e o que ela apresenta?

Podemos dizer que o grande diferencial da filosofia em relação à poesia lírica e à tragédia é que ela põe em questão não apenas a religião homérica – e sua concepção do mundo, seus valores e preceitos éticos etc. –, como o próprio pensamento mágico-religioso. O filósofo inaugura um novo modo de pensar, um modo racional, lógico, não-mítico. E sobre o quê os primeiros filósofos pensam? Sobre a phýsis – noção complexa, significa Natureza, mas uma Natureza viva, inteligente e divina, é o universo em sua totalidade e é tudo o que nele existe e que não é feito pelo homem, que não é artificial, é tudo o que é natural, como as pedras, as plantas, os animais (o homem), os astros, as nuvens etc.

A figura inusitada do filósofo grego é de uma ousadia sem precedentes: discorda de crenças que por séculos foram o parâmetro ético, religioso e político da civilização helênica, como duvida de todos os sábios que eram no seu tempo consagrados: os poetas, os profetas e os videntes. Chamando a atenção para o caráter revolucionário dos primeiros pensadores gregos, Nietzsche afirma que é possível “apresentar os filósofos arcaicos como aqueles para quem a atmosfera e os costumes gregos são uma cadeia e uma prisão: por isso eles se emancipam (…), todos contra o mito” (NIETZSCHE, 2001).

Conforme a interpretação nietzschiana, a filosofia surgiu entre os gregos num período de “plena maturidade viril, na alegria ardente de uma idade adulta, corajosa e vitoriosa” (NIETZSCHE, 1987). Porém, a exuberância e o vigor do período arcaico da filosofia grega não perdura por muito tempo, acaba quando, na virada do século V para o IV a. C., surge um novo tipo de homem, o “homem teórico” (NIETZSCHE, 1992), que é excessivamente racional, não-místico por excelência e não-artístico por consequência.

O período arcaico é o período da História grega (em torno de 800 a.C. a 500 a.C.) que se situa entre o período homérico e o clássico. É importante deixarmos claro que, enquanto na língua portuguesa o termo arcaico significa antigo, e pode significar antiquado, obsoleto, ultrapassado, “arcaico” em grego vem de arché, que significa princípio, origem, fundamento, e por isso tem um sentido altamente positivo, já que aponta para o que é fundamental, originário.

E quem encarna plenamente esse novo tipo de homem é Sócrates. E, como não poderia deixar de ser, esse novo homem socrático inaugura uma nova forma de ser filósofo. Sócrates, ou melhor, o que ele representa para Nietzsche (o enorme desenvolvimento da racionalidade lógica), é o grande divisor de águas da História da Filosofia. Depois dele, o filósofo torna- -se um otimista teórico que “[…] celebra em cada conclusão a sua festa de júbilo e só consegue respirar na fria claridade da consciência” (NIETZSCHE, 1992). Como o novo filósofo socrático está certo e seguro de que a razão, e somente ela, é capaz de conhecer o âmago do real, ele deprecia todos os impulsos que não estão a ela subordinados, e, através do fio condutor da causalidade lógica, busca encontrar, a qualquer preço, a verdade que lhe falta.

Viva Os Primeiros Filósofos Gregos!

Surpreso diante o Cosmo, o filósofo emerge desafiando o antigo e o novo, duvidando de tudo e de todos. Pulsando vitalidade e coragem, ele teve a audácia de pensar a Natureza, o divino e o humano a partir de si próprio, teve a ousadia de olhar o mundo como se fosse pela primeira vez, levando em consideração apenas o que lhe dizia a sua própria percepção.

Nietzsche admira o forte sentimento de segurança que os filósofos arcaicos possuíam em relação às suas próprias convicções e os apresenta como altivos e orgulhosos. Indiferentes a opiniões alheias, todos eram homens de uma “solidão extraordinária” (NIETZSCHE, 1987) e gozavam de uma elevada autoestima. Neles, não existia o pensamento puramente teórico, não havia distância entre o pensamento e o sentimento. Neles, o pensamento é “um apoio para a vida e não para o conhecimento erudito” (NIETZSCHE, 1987).

Os pré-socráticos, os filósofos da Natureza, os “físicos”, como dizia Aristóteles – em destaque: Tales, Anaximandro, Heráclito, Parmênides, Pitágoras, Anaxágoras, Empédocles e Demócrito –, inauguraram formas absolutamente originais de compreender o Cosmo. Todos tiveram a pretensão de, absolutamente sozinhos, decifrar o que é o universo e transmitir aos demais a sua visão de mundo.

De Tales aos sofistas e a Sócrates, nós temos sete categorias independentes, quer dizer, sete vezes o aparecimento de filósofos originais e independentes: 1- Anaximandro, 2- Heráclito, 3- os Eleatas, 4- Pitágoras, 5- Anaxágoras, 6- Empédocles, 7- Atomismo (Demócrito). Eles representam sete visões de mundo radicalmente diferentes. (NIETZSCHE, 1994).

Todos criaram um texto através do qual apresentaram o que consideravam ser a verdade sobre a phýsis. Conforme o perspicaz professor Nietzsche, a “verdade” enunciada pelos filósofos arcaicos era, por eles, compreendida como uma espécie de presente divino, algo que é recebido, que chega de repente, sem qualquer deliberação prévia da consciência e da vontade do indivíduo. Desse modo, os sistemas teóricos expressam o que surge de uma experiência arrebatadora, mágica, não-racional. O que significa dizer que o filósofo arcaico não foi conduzindo, de modo lúcido e consciente, seu pensamento lógico até descobrir a verdade. Ao contrário, a verdade é que veio ao seu encontro num daqueles raros momentos, os “momentos das iluminações súbitas, quando o homem estica seu braço imperiosamente, como que para criar um mundo, produzindo luz de si mesmo e espelhando-a em torno” (NIETZSCHE, 1996).

Como nos fala Conford, em seu livro Principium Sapientiae, os primeiros filósofos gregos não se preocupavam com “a questão de o homem ser capaz de atingir o conhecimento exato e, no caso de o ser, em que campos e por que processos”:

O filósofo do século VI não tivera quaisquer dúvidas quanto à sua “apreensão mental” de verdades evidentes em si mesmas. Lucrécio descreve muito bem esta atitude quando compara as afirmações dos filósofos pré-socráticos aos oráculos de Apolo! Saúda a poesia de Empédocles como a voz do gênio inspirado que apresenta suas magníficas descobertas de tal maneira que nem parece descender da raça dos mortais. Ele e outros inferiores a ele foram inspirados pelos deuses para descobrir muitas verdades e “têm tirado do sacrário dos seus corações respostas mais santas e mais certas do que as proclamadas pela Pítia do tripé e do loureiro de Febo” (CONFORD, 1989).

Como a verdade não era conquistada pelo fio lógico do discurso racional, o filósofo arcaico, antes de tudo, sentia, pressentia, acolhia o que a Natureza lhe dizia. A escuta (como em Heráclito), mais do que a fala (como em Sócrates), é própria do seu caráter.

No Princípio, Uma Força Misteriosa:

Quando surgiu na Grécia, a filosofia era uma espécie de Física, de Cosmologia, uma investigação racional sobre o universo. De Tales a Demócrito, os filósofos buscaram descobrir qual é o princípio fundamental de todas as coisas, arché, que, para eles, estava na própria phýsis e não numa realidade transcendente. Aliás, não há transcendência na filosofia pré- -socrática. Sem recorrer aos mitos, às alegorias e fábulas, os pré-socráticos são os primeiros a pensar utilizando conceitos e conexões lógicas, nesse sentido, eram uma espécie de cientistas, os primeiros cientistas, já que as ciências surgiram a partir (ou junto) da filosofia.

Em seu denso e profundo manuscrito Os filósofos pré-platônicos, Nietzsche refere-se a ideia de que Tales é o primeiro a utilizar conceitos, e apresenta a seguinte definição de filosofia: a filosofia é “a arte de representar em conceitos a imagem de tudo o que existe” (NIETZSCHE, 1994); “Tales foi o primeiro a satisfazer essa definição” (NIETZSCHE, 1994). Cf. BULHÕES, 2015.

Nietzsche reconhece o valor do traço científico da filosofia, diz ele: “A filosofia grega arcaica, contra o mito e pela ciência” (NIETZSCHE, 2001). Mas ao mesmo tempo que aponta para o parentesco entre a filosofia e as ciências, também destaca diferenças decisivas entre ambas. Enquanto as ciências têm um objeto específico a ser investigado a partir de um método determinado, a filosofia pré-socrática não tem nenhum objeto em particular, menos ainda um método a ser seguido. Poderíamos dizer que seu não-objeto é o mundo em toda a sua magnitude e o seu não-método é escutar a música das esferas, como diziam os pitagóricos.

A frase de Tales de Mileto, que inaugurou a filosofia grega, “a água é o princípio de todas as coisas”, mostra que o olhar do filósofo é distinto do olhar do cientista, pois o que Tales viu é justamente o que os sentidos não mostram: viu o princípio (que é Um), viu a multiplicidade (todas as coisas) e, sobretudo, viu que Tudo é Um e Um é Tudo. “Se (Tales) tivesse dito: ‘A água transforma-se em terra’, teríamos apenas uma hipótese científica falsa, mas difícil de refutar. Mas ele vai além da ciência propriamente dita” (NIETZSCHE, 1987).

Nietzsche deixa claro que existe uma outra característica que diferencia ainda mais os filósofos arcaicos dos cientistas: o que levou Tales a enunciar sua célebre frase não foram suas observações empíricas, foi, sim, uma “intuição mística” (mystischen Intuition) (NIETZSCHE, 1987. E assim como Tales, todas as teorias pré-socráticas expressam uma visão de mundo que surgiu de uma “intuição filosófica profunda” (NIETZCHE, 1987).

Nietzsche chama atenção de que cada um dos pré-socráticos está absolutamente convicto de que somente ele vislumbrou a verdade absoluta do universo e essa certeza “nada tem a ver com a lógica” (NIETZSCHE, 2001). Essa certeza vem do sentimento, vem de um páthos, o “imenso páthos da verdade” (NIETZSCHE, 2001) – um forte sentimento que invade o pensador. Vale notar que o adjetivo imenso é aqui utilizado porque não se trata de uma verdade baseada em preceitos lógicos, pois se fosse o termo imenso seria inapropriado, já que não há gradação de intensidade nas demonstrações lógicas. Estas são absolutamente verdadeiras ou são absolutamente falsas.

A expressão “páthos da verdade” (Wahrheitspathos) aparece com frequência em vários fragmentos póstumos dos anos de 1872 e 1873. Páthos é um termo grego que significa: paixão (por oposição à ação), sentimento, sensação, impressão, experiência, afecção. “Sobre o páthos da verdade” é o título de um dos vários livros que Nietzsche pensou em escrever, mas não o fez. Escreveu apenas o prefácio. Entendemos que a “intuição mística” da verdade ou o “páthos da verdade” corresponde (ou é semelhante) ao que os antigos gregos chamavam de mania, que significa “possessão, que implica estar fora de si, não mais em posse da própria razão, na medida em que esta é possuída pelo Divino” (REALE, 1995). É um estado de “loucura divina”, “delírio”, “exaltação”, “furor”, quando um impulso divino toma posse da razão humana.

Em seus escritos, Nietzsche salienta que, na época trágica, “o filósofo está cheio do mais elevado páthos da verdade” (NIETZSCHE, 2001). Xenófanes, por exemplo, “é um místico religioso e pertence realmente, com a sua unidade mística, ao século sexto” (NIETZSCHE, 1987). Sua visão do mundo (“Tudo é UM e Um é deus”) surgiu de um estado de percepção digno do seu século. O que significa dizer que a racionalidade lógica faz parte da Filosofia grega desde seu início, porém, nos ensina o professor, houve uma “predominância progressiva das forças lógicas” (NIETZSCHE, 2001); o “pensamento lógico, pouco empregado pelos Jônios, desenvolve-se muito lentamente” (NIETZSCHE, 2001).

Se o filósofo do período arcaico teve uma determinada visão de mundo é porque a Natureza a ele assim se mostrou. Ele viveu uma espécie de êxtase dionisíaco. Nesse sentido, podemos afirmar que o filósofo pré-socrático questionou o pensamento mítico, mas não contestou a experiência mística-religiosa que lhe fez ver-sentir-ouvir a (sua) verdade. Nele, o que predominou não foi um frio e fino raciocínio lógico, mas, sim, um imenso e quente sentimento. Ou seja, na filosofia arcaica, os mitos ficaram para trás, mas os impulsos místicos não.

O filósofo arcaico é tomado pelo páthos da verdade e só depois racionaliza e verbaliza o que sentiu: “o imenso páthos da verdade […] constrange-o à comunicação e esta, por sua vez, à lógica” (NIETZSCHE, 2001). Ou seja, a razão vem depois, vem para transformar em conceitos e num sistema lógico uma visão de mundo que surgiu de uma experiência súbita e ilógica. E justamente por isso, por essa origem não-racional das teorias filosóficas, os filósofos arcaicos não tiveram a menor pretensão nem preocupação em fundamentar suas verdades através de raciocínios lógicos, mesmo porque esses raciocínios não são fundamentais. Neles, a intuição é fundamental e a razão, superficial. As ideias, as teorias, são uma tradução de uma experiência intuitiva, concreta e subjetiva.

Cada um dos pré-socráticos sentiu-viu-intuiu uma verdade, que, a rigor, é exclusivamente sua, já que remete a uma experiência viva e totalmente pessoal. O que implica dizer que os textos teóricos servem para comunicar uma verdade que, de fato, é incomunicável. Os escritos traduzem em palavras um páthos que não pode ser verbalizado. Isto é, as palavras não dizem a verdade intuída.

O filósofo arcaico enuncia a (sua) verdade através de seu texto como um artista que cria algo belo e nada precisa justificar. Diferente do cientista, que necessita comprovar sua teoria, ele é, nesse sentido, semelhante a um músico, que, depois de escutar a música das esferas, toca um instrumento: “o filósofo busca ressoar em si mesmo a sinfonia do mundo e destacá-la em conceitos para fora de si” (NIETZSCHE, 1987).

Conforme nos ensina Nietzsche, o valor dos textos da filosofia arcaica é poético, pois não demonstram a verdade intuída, que é, aliás, indemonstrável, apenas apontam em sua direção, tal como fazem os oráculos. Eis aqui a grande qualidade dos filósofos arcaicos ressaltada pelo professor filólogo-filósofo: nos pré-socráticos, “o filosofar está ainda presente como obra de arte, mesmo que não se possa demonstrá-lo como construção filosófica […], o que decide não é o puro instinto de conhecimento, mas o instinto estético” (NIETZSCHE, 2001).

Os primeiros filósofos gregos estão entre “os cavaleiros mais audazes”, os mais solitários, que não procuram a glória, não desejam nem precisam do reconhecimento “das massas”, pois sentem e sabem o valor da sua vocação rara e extraordinária.

É no meio dos filósofos que se devem procurar os cavaleiros mais audazes entre aqueles que procuram a glória, os que acreditam encontrar seus brasões inscritos em uma constelação. Sua ação não se volta para um “público”, para o alvoroço das massas e o aplauso aclamador dos contemporâneos; pertencem à sua essência os passos solitários da estrada. Sua vocação é a mais rara. (…) Ele não saberia ficar se não fosse sobre as asas vastamente abertas de todos os tempos. (NIETZSCHE, 1996).

A Partir de Sócrates, A Razão Torna-se Desmesurada – Quer Tudo Iluminar

A excepcional vitalidade e genialidade da filosofia arcaica grega termina com a chegada de Sócrates, que incorpora como ninguém o novo “homem teórico” (NIETZSCHE, 1992) que então surgia. O homem-símbolo Sócrates rompe com seus predecessores e inaugura um novo modo de ser filósofo, cujo traço principal é ser movido por um impulso lógico desenfreado. O novo filósofo socrático não foi tomado por nenhum páthos da verdade, como também não teve nenhuma intuição, muito menos uma intuição mística.

A interpretação de Nietzsche sobre Sócrates é complexa, pois o “herói dialético do drama platônico” é, ao mesmo tempo, alvo de críticas, na medida em que simboliza o desenvolvimento excessivo e tirano da razão, como também é visto com admiração, já que, como os pré-socráticos, faz parte da “república de gênios” (NIETZSCHE, 1987). Cf. BULHÕES, 2011.

Dotado de uma “natureza inteiramente anormal” (NIETZSCHE, 1992), Sócrates buscava o verdadeiro conhecimento nos grandes homens de seu tempo, “os grandes estadistas, oradores, poetas e artistas”. Porém, em vez de encontrar um saber estruturado sobre bases sólidas e lógicas, só se deparou com a “presunção do saber”.

[…] a palavra mais incisiva em favor dessa nova e inaudita estimação do saber e da inteligência foi proferida por Sócrates, quando verificou que era o único a confessar a si mesmo que não sabia nada; enquanto, em suas andanças críticas através de Atenas, conversando com os maiores estadistas, oradores, poetas e artistas, deparava com a presunção do saber. (NIETZSCHE, 1992).

Seus interlocutores facilmente entravam em contradição, não conseguiam explicar o suposto saber que possuíam através de argumentos lógicos. O que não teria, como não tinha na época, problema algum se não fosse ele, Sócrates, a desconfiar de qualquer tipo de sabedoria instintiva que não fosse demonstrada pelo pensamento consciente e racional. Depois de inúmeros diálogos, Sócrates acaba se convencendo de que se ele é o mais sábio dos homens, como disse o oráculo de Delfos, é porque é o único que sabe que nada sabe. O único que que tem ciência da sua não-ciência.

Enquanto que na filosofia arcaica as verdades são personalizadas, isto é, inseparáveis de cada um dos pensadores, no reino onde imperam os parâmetros socráticos, as (supostas) verdades devem ter validade universal, devem ser acessíveis a todos, visto que o raciocínio lógico é (supostamente) neutro, imparcial, e, por isso mesmo, independe do sujeito que pensa e, sobretudo, independe de seus sentimentos. Isto é, a verdade, nesse ambiente esclarecido, nada tem a ver com o páthos.

Conforme a interpretação nietzschiana, a partir de Sócrates, a “sublime ilusão metafísica” (NIETZSCHE, 1992) – a crença de que o mecanismo racional que produz conceitos, juízos e deduções é “[…] a atividade suprema e o admirável dom da natureza, superior a todas as outras aptidões” (NIETZSCHE, 1992) – passa a se expandir cada vez mais, principalmente com o apoio de Platão que, pensa Nietzsche, subordinou seu talento poético ao seu pensamento lógico dialético (cf. BULHÕES, 2013).

Semelhante ao herói das tragédias de Eurípides, “que precisa defender as suas ações por meio da razão e contra-razão” (NIETZSCHE, 1992), Sócrates inaugura um novo paradigma de quem é o filósofo e o que é a filosofia. Aos olhos de Nietzsche, o império dos conceitos e das combinações lógicas marca o fim da época áurea da filosofia. Desde então, passa a predominar uma definição de filosofia fundada apenas na racionalidade lógica que se auto impõe como a única a dar legitimidade ao discurso filosófico e a qualquer outro tipo de conhecimento que tenha a pretensão de ser “científico”.

Desde Sócrates, os filósofos são guiados pelas frias luzes da tirana razão que predominam e controlam (ao menos, tentam) a dimensão quente e obscura dos sentimentos. Segundo o então jovem filólogo-filósofo: “É uma fase derradeira, pouco elevada” (NIETZSCHE, 2001). Mas foi essa fase “pouco elevada” da cultura helênica que predominou em nosso mundo ocidental-socrático-otimista.

Nietzsche foi, é e será um pensador que ousou criticar de modo severo as bases de todo conhecimento cuja pretensão é ser absoluto e universal. Mas, para nossa surpresa, como vimos aqui, em seus escritos sobre a verdade mística dos filósofos arcaicos, não identificamos seu senso crítico. Ao contrário, sentimos o tom de profunda admiração por esses pensadores que apresentaram, cada um, a sua própria e original filosofia cujo ponto de partida é uma experiência misteriosa e ilógica. Nietzsche exalta esses “grandes homens” nos quais a claridade da razão não eliminou a escuridão dos mistérios nem ofuscou o colorido das artes.

A filosofia arcaica permaneceu durante séculos esquecida nos subterrâneos como um tesouro a ser redescoberto. E é isso o que faz Nietzsche. Ele nos mostra que é possível aprender com os filósofos da época trágica dos gregos como ser livre no exercício do pensar e escrever, pois eles ensinam que as teorias filosóficas são racionais, mas também são poéticas – poderíamos dizer que a filosofia é uma espécie de poesia conceitual. Com os antigos mestres, Nietzsche aprendeu que “o valor da filosofia […] não corresponde à esfera do conhecimento, mas à esfera da vida” (NIETZSCHE, 2001).

Hoje, em pleno século XXI, Nietzsche, inspirado pelos filósofos arcaicos, nos instiga a rever nossos (pre)conceitos e nos leva a pensar que o exercício filosófico é uma atividade racional, mas não precisa ser exclusivamente nem excessivamente racional. A Filosofia pode unir a intuição, a criatividade e a razão, pode juntar a lógica e o ilógico presentes na existência. E o Filósofo, em vez de procurar por uma verdade sem páthos, pode ser movido pelo páthos da verdade. Enfim, o amigo leitor pode continuar lendo meus artigos ao acessar no Google: Artigos Filósofo Nilo Deyson Monteiro. Sigam também minhas redes sociais:  Instagram Nilo-Deyson  e FANPAGE no Facebook Filósofo Nilo Deyson Monteiro.

Nilo Deyson Monteiro Pessanha



FILÓSOFO, ESCRITOR, POETA, COLUNISTA & PALESTRANTE. Fundador da Filosofia da imparcialidade participativa. Autor do livro de Filosofia Todos os Corações do mundo, e do Livro O Teatro da vida e a interpretação das coisas, quem nos garante ser verdade das coisas. Membro de diversas instituições culturais como por exemplo, é imortal acadêmico da Academia de Letras do Brasil seccional Campos dos Goytacazes, é imortal Acadêmico da Academia Pedralva Letras e Artes, ocupante da cadeira n°17 , Fundador do NAISLA, Núcleo Acadêmico Italiano di Scienze, Littere e Arti. Membro de diversas instituições. Nilo Deyson Monteiro participou de diversas antologias, periódicos e muitos de seus trabalhos acadêmicos estão no Google ao pesquisar Filósofo Nilo Deyson.

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