Algumas lições de Sunita Narain

Conforme Max Weber nos ensinou um dia: a realidade do mundo social é também cultural, isto é, a leitura que fazemos sobre a realidade concreta também faz parte, concretamente, da realidade.

De certa maneira, as queimadas que devastam a Amazônia e o Cerrado têm demonstrado isso nas últimas semanas.  Lamentavelmente, mais importante que o fato em si, o que parece estar em jogo para os principais agentes envolvidos na questão é impor uma determinada interpretação sobre o fato.

Tudo isso parece um intelectualismo fútil, mas não é.

As interpretações evidenciam visões políticas sobre fenômenos sociais, sobre seus fundamentos, conflitos e mesmo tragédias.

Mas uma que me chamou a atenção – em vista da reação de governos e de grandes empresas desses mesmos países, por sinal os mais desenvolvidos do mundo capitalista diante do bizarro posicionamento do governo de Bolsonaro,  negando a todo momento o fato da destruição amazônica – é a que sustenta um suposto antagonismo entre capitalismo e destruição ambiental. Chegou-se a afirmar que poderíamos ficar tranquilos, que o sistema capitalista iria arrumar um jeito de pressionar Bolsonaro a voltar atrás, e após essa providencial pressão, tomar medidas para preservar suas florestas e faunas.

Pois não haveria coisa mais racional e lucrativa para o Capitalismo do que um meio-ambiente saudável, bem preservado, não obstante poder ser voltado para a exploração econômica capitalista, mas, óbvio, de maneira racional e equilibrada – como o Capitalismo…

O problema todo – para esse tipo de interpretação – é existir pessoas como Sunita Narain.

Sunita é ativista ambiental por mais de 30 anos, em 2016 a revista norte-americana Time a elegeu como uma das “100 pessoas mais influentes”, foi entrevistada por Leonardo DiCaprio para o seu documentário sobre alterações climáticas, Before the Flood. É diretora do Center for Science and Development, de Nova Deli e diz taxativamente que os “mais pobres estão na linha de frente” da crise ambiental. Ou seja, eles serão os mais intensamente vitimados pela catástrofe.

Ela explica que para lidar com ela – a catástrofe, a máquina do sistema social de nome Capitalismo irá produzir mais desigualdade e miséria, como ele sempre cuidou de fazer em toda a sua história. Sunita defende a esse respeito numa entrevista publicada no jornal português Público, de 23 de setembro último (p. 6):

“Há uma evidência clara de que as alterações climáticas já estão a acontecer, mas os ricos têm mecanismos para lidar com isso, podem ligar o ar condicionado ou vestir roupas mais quentes, não são tão vulneráveis às mudanças na natureza.”

Em outro momento, ela toca em outro aspecto, bem mais grave: ela insinua que em boa dose, a catástrofe ambiental pode ser até mesmo benéfica para o Capitalismo, no sentido de proporcionar meios que acelerem e amplifiquem as condições favoráveis de expansão da acumulação de capitais. Citando fatos que estão ocorrendo na Índia por conta do aquecimento global, ela aponta:

“[…] há cada vez mais pessoas a mudar-se da Índia rural para a urbana. Hoje, em vez de termos uma má cheia a cada dez anos, estamos a ter uma a cada dois anos, ou uma vez por ano. Está a tornar-se a cada vez mais difícil aguentarem. E qual é a opção que têm a não ser deixarem as suas casas e procurarem emprego nas cidades? Se os mais pobres imigrarem, isso pode significar que as nossas cidades se vão tornar ingeríveis.” (p. 7)

 

Isso tudo me leva a pensar que não é o aquecimento global ou o apocalipse ambiental que irá destruir o planeta. Penso que o Capitalismo fará isso antes.



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