A tristeza de C.

Você gosta de assistir a filmes? Qual seu gênero favorito? Eu gosto muito de assistir a filmes! Meus favoritos são os que têm como personagens principais detetives e piratas. Aventuras são tão emocionantes, não é mesmo? Mas, sabe que outro tipo de personagem eu gosto muito? O nacional. Sim, o sujeito comum, o carinha dali da esquina cujo dia dia é uma verdadeira aventura.

Eu assisti, há pouco tempo, uma maratona dos filmes do Amácio Mazzaropi. Apesar de serem bastante antigos, fazem alguns questionamentos muito atuais. Por exemplo: a desigualdade social, a concentração de recursos nas mãos de poucos, o analfabetismo, a solidariedade, a valorização dos saberes dos mais velhos, a intolerância, o respeito ao próximo. Isso para ficar com os temas mais recorrentes.

Sabe o que mais me incomodou? Amácio Mazzaropi fez seu primeiro filme em 1952. Nós estamos em 2019 e ainda não resolvemos a maioria desses problemas e, pior, agravamos outros. Isso não me parece certo. E vou lhe explicar o motivo. As decisões tomadas pelos governos somente são eficazes que forem para grandes quantidades de pessoas, de preferência, todo mundo em uma cidade, Estado ou País.

Se um governo toma a decisão de que todas as pessoas não podem mais irem à escola de certo dia em diante, a primeira escola que fechará será a de quem mais precisa: do cidadão periférico, desprovido de recursos financeiros, assalariado e dependente do SUS. Assim é para toda e qualquer coisa, na maior parte do tempo.

Quanto mais desigual é uma sociedade, mais competitiva ela é, e, portanto, menos colaborativa. A concentração de recursos, financeiros, agrários ou de qualquer outro tipo, aumenta geometricamente. Aumenta-se a intolerância entre pessoas e instituições. A violência aumenta, o respeito ao próximo despenca. A solidariedade sai de moda. Os mais velhos são negligenciados.

Considere uma cidade inteira imersa nesse cenário. Se é verdade que o ser humano é fruto de seu meio, me responda, com toda a honestidade de seu coração: como acha que será, nesse cenário, uma classe de alfabetização? Crianças calmas, tranquilas e seguras? Lembre-se que essas crianças vieram dessa sociedade e repetem o que aprendem fora da escola.

Tendo sua resposta em consideração, você acredita que essa turma de alfabetização terá a chance de aproveitar tudo o que poderia sendo produto deste meio? Pense bem…Acredita que essas crianças, criadas nesse meio, sentirão mais atração por aprender a escrever o próprio nome ou a ‘se dar bem’?

Honestamente, não é uma conta muito difícil de fazer. Se todas as pessoas com as quais essa criança convive só fala e pratica ações visando formas de sobreviver nesse mundo, sem refletir sobre a importância de ética, Educação e outros temas, a tal criança proverbial irá entender que isso é o certo, aceitável e bom.

Agora, imagine o oposto. Como é essa criança? Calma, tranquila, segura? Aprende melhor? Tem um ambiente que lhe encoraja a aprender coisas de dentro e de fora da escola e as têm como igualmente importantes? Como é o comportamento geral dessa criança? Melhor que o da primeira, não é mesmo?

Você percebeu que não se trata de ter ou não uma fortuna como a do Tio Patinhas? É sobre o modo que as coisas são conduzidas. Pois o primeiro a sentir o efeito é precisamente quem mais necessita de amparo. E esse indivíduo precisa ser fortalecido até não mais precisar ser amparado, para que possa ter condições de oferecer ajuda.

Se a qualidade de vidado mais desprovido dos  cidadãos é compatível com o que está escrito na Constituição Federal de 1988, ou chega bem perto disso, a qualidade de vida de quem tem um pouco mais será tão boa quanto a dele ou superior. Com uma qualidade de vida decente, é muito mais fácil manter a calma, o foco e a sanidade emocional.

Assim, o comportamento geral das pessoas de uma cidade é mais salutar, produzindo pessoas menos doentes, mais produtivas e bem-humoradas. As quais, produzem vizinhanças fortes, com crianças e jovens seguros e fortes. Isso feito, não existe motivo para diminuir a maioridade penal, permitir porte de arma ou coisas do tipo.

Permitir a facilitação do porte de arma, sem garantir preparo mínimo, é assinar a criação de bandidos de ocasião para suprir a demanda das  cadeias alugadas pelo governo. E, diminuir a maioridade penal é a justificativa para jogar qualquer um, em uma dessas cadeias, com cada vez menos idade.

Nas cadeias, o acesso à escola é garantido por lei, mas, o preso-aluno pode ter sua ida negada à aula. Esse cidadão, assim como os daqui de fora do primeiro cenário apresentado, tem sua formação prejudicada. Tal formação não permite que essa pessoa desenvolva certas habilidades tidas com básicas  para ser um membro produtivo de nossa sociedade.

Assim, perpetua-se o ciclo da marginalidade, isto é, manter as pessoas à margem, excluídas, das coisas boas, tomando delas o direito de escolha sobre o que desejam obter, sonhar e realizar. Essa pessoa poderia ser você. Entendeu o motivo de eu char isso errado? Conte-me nos comentários!



Estudante da vida e suas conexões, professora por ofício e vício, pesquisadora por necessidade, ajuda as pessoas a atingirem suas metas de modo personalizado, barato e sem justificativas usando a Educação como principal ferramenta.

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