A punição da fome: “O que tem pro almoço hoje, mãe?”. “18 dias de prisão, filho”

Nos últimos dias a internet tem se manifestado sobre a notícia de que uma mãe havia furtado comida e sido presa logo em seguida. Como qualquer assunto que vira notícia, esse também dividiu opiniões na internet. Um dos posts que vi a respeito questionava aos internautas se eles defenderiam quem furta para comer enquanto a fome continuar sendo um problema.

Os comentários deixavam clara a divisão de opiniões, mas um em particular me chamou a atenção. O autor do comentário atribuía, de forma correta, a culpa pelo furto à falta de Políticas Públicas suficientemente eficazes no combate à fome, afirmando que enquanto não existirem políticas eficazes para a erradicação da fome e da pobreza, então, defenderá sim aqueles que furtarem para suprir suas necessidades básicas de sobrevivência.

Enquanto os comentários se dividiam entre “Defendo totalmente quem rouba pra comer” e “No dono do mercadinho vocês não pensam, né?”, o responsável pelo comentário descrito acima foi o único que trouxe à tona a discussão realmente importante: a inexistência de métodos eficazes para superação da fome no país.

Em relação aos comentários questionando as pessoas quanto a situação do dono do mercado, é interessante esclarecer que quando se defende alguém por ter furtado comida, em momento algum está sendo dito que o “Seu Zé”, dono do mercadinho, deve aceitar o que aconteceu, menos ainda que a situação do tal dono não importa. O que está sendo dito é que a fome, quando sentida por um longo período e sem expectativas para o seu fim, faz o ser humano agir contra a própria razão.

Assim, punir criminalmente alguém pelo furto cometido para matar sua fome, sem garantir à essa pessoa meios para sua sobrevivência, não vai impedi-la de furtar novamente. Sem existir garantia nenhuma para o sustento dessa pessoa, há duas possibilidades: ou ela voltará a cometer o crime ou morrerá de fome.

Agora, para aqueles que afirmam defender o ato praticado pela pessoa atingida pela fome, é necessário lembrar que é preciso ir além. Não deveríamos ter que defender essa conduta, porque essa conduta não deveria existir. Não deveria existir a necessidade de defesa após a prática do ato, deveriam existir ações eficazes para impedir a prática do ato. Pessoas não deveriam passar por situações de fome tão intensas a ponto de se verem obrigadas a cometer um crime.

A preocupação apontada por aqueles que trouxeram à tona a situação do dono do mercadinho está ligada ao fato de que situações como essa têm se tornado cada vez mais comum, o que significa que quanto mais frequentes se tornarem os acontecimentos como esse, maior será o impacto causado na vida do “Seu Zé”.

É por essa razão que se bate na tecla da urgência que se tem em implantar Políticas Públicas de qualidade, que garantam às pessoas meios de sustento para elas e para suas famílias.

Viver em um país onde, de acordo com pesquisas, quase 20 milhões de brasileiros alegam passar 24 horas ou mais sem ter o que comer, nos impõe essa urgência. Por essa razão, apenas defender não basta, é necessário lutar pela garantia do direito à alimentação para todos.

Questionar o posicionamento do “coleguinha” na internet, cobrar por meio de comentários que as pessoas se lembrem do “Seu Zé”, não é suficiente para que a situação se resolva. Os questionamentos, as cobranças estão sendo direcionadas às pessoas erradas, esses questionamentos e cobranças deveriam estar sendo feitas ao Governo Federal.

A mulher presa, mãe de cinco crianças e desempregada, furtou dois pacotes de miojo e um de suco para dar aos filhos, uma lata de leite condensado e uma garrafinha de Coca-Cola para o seu consumo. Quem sabe se o Governo Federal cogitasse dividir entre a população carente as mais de 6 mil latas de leite condensado, consumidas diariamente no ano passado (2020), não veríamos com tanta frequência situações como essa.

Em outras palavras, quem sabe se o valor utilizado pelo Governo Federal para a manutenção do consumo diário de algo tão supérfluo fosse usado para investir em Políticas Públicas de qualidade para o povo brasileiro, não precisaríamos nos preocupar em ter que defender uma mulher por ter furtado uma lata do mesmo produto, muito menos teríamos que ficar preocupados com a situação do “Seu Zé”, do “Seu João”, da “Dona Ana” ou da “Dona Maria”, caso esses quase 20 milhões de brasileiros se vejam obrigados a furtar os mercadinhos de suas cidades.



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