A história – além da bola – também pune!

A tese de Lucio de Castro é preciosa.

A indigência intelectual da esmagadora maioria dos técnicos é fruto inequívoco do desmonte da educação pública desde a ditadura militar. Destruição essa que atinge não apenas os técnicos mas também os jogadores. Os mesmos que anos depois se tornarão técnicos…

Lucio, jornalista esportivo que já atuou na ESPN e que hoje dirige a agência de jornalismo investigativo SportLight, lembra que antes do Golpe de 64, o investimento do governo federal em educação batia 13%, para em pouco menos de uma década depois ser reduzido para esquálidos 4%. Um acinte. Um projeto criminoso.

A falta de preparo é flagrante. A limitação é notória. Tite deixou de trabalhar na Itália porque se achava incapaz de aprender o italiano. Vocês conseguem imaginar um técnico argentino soltar uma barbaridade dessas?

Mas o erro é reportar esses aspectos a uma dimensão puramente individual. Não, os técnicos brasileiros são fracos, incapazes de inovar, de ler atentamente e taticamente os jogos não porque não se esforcem, porque são incapazes ou porque são preguiçosos.

Falas como a do Renato Gaúcho, que certa vez disse que por ter sido jogador não precisava estudar pra ser treinador, não pode servir de pretexto para análises descontextualizadoras.

Renato pensa e fala assim porque foi condicionado por um devastador processo de destruição de nosso sistema de aprendizado de caráter e natureza públicas. A baboseira dita por Renato é um sintoma social. E por isso deveria ser seriamente analisada, pois as baboseiras também têm história, têm lastro social.

E ele fala assim, livre e impunemente, porque ele respira num ambiente que desprestigia historicamente o trabalho intelectual. Estamos num país em que até movimentos progressistas enxergam o estudo e a discussão intelectual como “frescura” e “conversa vazia” de gente que “não vive a verdadeira realidade”.

E o que sobrou desse sistema educacional parece se assentar unicamente em “preparar” o cidadão a contar e ler (mesmo que não entenda).

Esses caras pensam assim porque o horizonte de pensamento deles (tão diminuto) foi assim historica e socialmente forjado, ao longo de décadas, desde pelo menos 1964.

E os reflexos disso no campo e fora dele são flagrantes. Só não vê quem não quer entender o que está vendo.



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