A cor do papel de parede

Qual sua cor favorita? Eu tenho algumas cores favoritas. E há cores que gosto para certas coisas e não para outras. Por exemplo, adoro amarelo para ambientes e acho feio para sapatos. Você também é assim? Sabe, cores são expressões da luz. De acordo com o comprimento da onda e a posição do observador, vê-se roxo ou verde, amarelo ou vermelho.

Mas, uma coisa nunca entrou pela minha garganta: se cores são expressões da luz, nós somos feitos do mesmo material de estrelas, por qual motivo há racismo? Não faz sentido para mim isso. Nos anos 1980, Clive Barker, autor britânico, lançou uma série de livros chamados de Livros de Sangue. Esses livros, em seis volumes,  contavam histórias curtas grotescas de terror, bem ao estilo do Quentin Tarantino em seus filmes. Mas, assim que se abria os livros, era possível ler que ‘cada livro é como um corpo, quando aberto, a impressão é vermelha’.

Para os Cristãos, o corpo humano é o templo de Deus. Em muitas religiões pagãs também há essa noção. Ora, se todos nós somos feitos com  ingredientes semelhantes, sangue mais ou menos vermelho e somos a casa de Deus, a cor da pele é apenas a cor do papel de parede, certo?

Se é verdade que Deus habita nossos corpos e o habitante da casa escolhe o papel de parede de sua casa, por qual motivo excluímos, maltratamos, cerceamos direitos, negamos conhecimentos, enfim, agimos com tamanha brutalidade contra pessoas assim como nós, porém de uma cor distinta da nossa?

Conversando com uma professora de Língua Espanhola, dizia a ela que eu não tenho o direito de ser racista, pois tenho a metade centro-oeste da Europa no sangue e pelo menos cinco etnias distintas vindas da África e dois ou três povos nativos no meu sangue.  Não uso a palavra raça para definir cor de pele e sim etnia, por englobar cor de pele e dados culturais.

Do modo que entendo as coisas,  raça é humana, eu, no entanto, sou brasileira. Sim, pois, todo brasileiro é fruto da miscigenação étnica. A não ser que a pessoa tenha vindo de um outro lugar que tenha uma maioria étnica esmagadora de um determinado tipo e obtenha cidadania brasileira.  Ela confessou nunca haver visto a questão por esse lado. O que é bem comum.

Mas, numa coisa concordamos: racismo é um mal social terrível que só causa prejuízos a quem o sofre e a quem o inflige. Cansei de ver em escolas cenas realmente lamentáveis. Entre os colegas, contra professores e de professores contra estudantes. Esse tipo de atitude naturaliza a violência, incentiva a pessoa que a sofre a abandonar seus estudos ou outra atividade a que esteja se dedicando.

Com isso, fratura-se o grupo. As contribuições daquela pessoa para o grupo, que são importantes, já não serão mais possíveis de se obter. A troca entre pares, os comentários em classe, o debate de ideias são fundamentais para cimentar o conhecimento,  formar novas ideias, incentivar pesquisas, criações de teorias, dentre outras coisas. Sem isso, todos perdem.

E estou falando apenas no âmbito da Educação. Mas poderia falar por três dias e duas noites sobre cada pequeno aspecto da vida sem qualquer dificuldade. Considere em seus cálculos que essas outras coisas sobre as quais não estou conversando fazem muita diferença.

Na verdade, são tão determinantes na vida das pessoas que, juntas, permitem até onde no horizonte as pessoas vejam e possam desejar chegar. Até que ponto podem acreditar em si mesmas. Selecionarem, dentro desse limite, que sonho pode ser realizado e qual está fora de alcance.

E é muito triste ver um estudante dizer que só vai terminar o Ensino Fundamental por não se sentir capaz de cursar o Ensino Médio, ou por acreditar que já estudou demais e é hora de começar a trabalhar para ajudar em casa. Pior ainda, quando o nível de humilhação é tão grande que a pessoa simplesmente deixa de ir à escola no dia seguinte e decide nunca mais pisar em uma escola.

Mas sabe o que me enfurece do fundo da alma? Quando conseguem convencer a pessoa que, por causa de sua cor, precisa se conformar em ser cidadão de décima classe e que qualquer atenção que lhe for dada, por pior que seja, já é um grande presente. Que não tem direito a buscar coisas melhores para si e para os seus, que viver dignamente é dádiva para todos, menos essa pessoa. É condenar alguém somente por existir.

Isso é algo que me faz questionar o princípio básico de humanidade. É isso? Um destruir o outro em palavras e ações? Envenenar a alma alheia? Guilhotinar sonhos? Degolar esperanças? Despedaçar autoimagens? Tranformar algo lindo e perfeito em outra coisa monstruosa e vergonhosa?  Se for isso ser humano, prefiro ser uma pedra!

Racismo é um grande prejuízo para todas as pessoas: as envolvidas e as que nem estão sabendo do que está acontecendo. Já ouviu dizer que a ‘união faz a força’? Quando excluo alguém, fraturo um grupo, tenho um mundo de possibilidades a menos. Pois, pessoas são isso: universos de possibilidades.

Quanto mais diverso é um grupo, maior sua possibilidade de criação e solução de problemas. Cada membro desse grupo, por ter um histórico diferente de seus colegas, que uma porção de conhecimentos, experiências, modos, jeitos, culturas distintas que podem lançar novas luzes sobre o modo daquele grupo lidar com a vida, os estudos, trabalho, relações amorosas, enfim.

Quanto menos diverso é esse grupo, maior a probabilidade das pessoas terem mais ou menos as mesmas experiências, comportamentos, vocabulário e, na hora de oferecer soluções criativas a algo fora do combinado, dificilmente conseguirão com rapidez e tranquilidade apresentarem algo inovador.

Não importa muito em que ramo da vida está esse grupo: trabalho, estudo, congregação religiosa, ou qualquer outra atividade. O que importa é que, conforme nos lembra Clive Barker, quando abertos, somos todos vermelhos.  Precisamos valorizar as pessoas por seu caráter, não discriminá-las pela cor de sua pele, afinal, não passa de papel de parede. O que me faz querer perguntar: qual sua atitude perante atos racistas? Conte-me nos comentários!

 



Estudante da vida e suas conexões, professora por ofício e vício, pesquisadora por necessidade, ajuda as pessoas a atingirem suas metas de modo personalizado, barato e sem justificativas usando a Educação como principal ferramenta.

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