A armadilha do auxílio emergencial

Em vídeo produzido ao final da última semana, a analista de política Maria Cristina Fernandes (jornal Valor Econômico e rádio CBN) chama atenção para um efeito produzido pelo auxílio emergencial criado para mitigar os prejuízos econômicos da pandemia: ele está de maneira inesperada contribuindo para a sustentação do governo Bolsonaro.

Deputados da base aliada a Bolsonaro e principalmente deputados que pensavam em iniciar algum tipo de debandada ou campanha contra o governo, perceberam que a implantação do auxílio de 600 reais para os setores mais vulneráveis da população está rendendo frutos para a melhora da imagem deste governo entre as classes C e D. Elas passaram a enxergar tal auxílio como uma realização pessoal de Jair Bolsonaro.

Pode-se discutir que o auxílio, como é sabido, foi resultado de toda uma articulação do Congresso, em especial da dupla Rodrigo Maia (presidente da Câmara dos Deputados) e Davi Alcolumbre (presidente do Senado). Uma iniciativa que representou no fundo uma grande derrota do Executivo (Lembremos que a proposta inicial da equipe econômica de Guedes era que o auxílio não passasse de 200 reais!).

Mas como sabemos também os fatos na política são feitos para serem interpretados, e mais do que isso: para serem manipulados. E a máquina de propaganda bolsonarista, como de costume, foi muito bem sucedida em transformar uma derrota num grande triunfo, como se fora resultado do gênio político de Jair. No fim das contas, o auxílio é vendido para a massa da população como uma espécie de bolsa-família ampliado, destinado a manter os pobres alimentados. Esse é o discurso.

E esse discurso está sendo abraçado pela população. Isso acabou implicando na seguinte interpretação fomentada pelos bolsonaristas: atacar Bolsonaro, tirá-lo do poder, é antes de tudo um ataque contra o auxílio emergencial. Aqueles que querem derrubar Jair visam atacar sobretudo os mais pobres, os beneficiários do benefício. Na narrativa bolsonarista, os ataques contra ele são o mais novo capítulo da guerra contra os mais pobres.

A grande questão que vivemos hoje é que esse crescimento de popularidade do governo Bolsonaro entre os mais pobres se fundamenta no “Coronavoucher”.

A chamada resiliência do Capitão deve ser entendida aí.Na visão de Maria Cristina Fernandes reside aí o grande obstáculo para a viabilização na conjuntura atual de um processo de impeachment.

Hoje, o custo político disso é muito grande. Ele é bastante impopular entre os mais pobres, pelas razões expostas acima.Mas como também de costume, a esquerda segue abraçando respostas fáceis como uma conspiração de todos os poderes em favor de Bolsonaro, a inércia de Rodrigo Maia, e eterno cochilo das “instituições”.

A manutenção dessa falta de visão só atrapalha no entendimento da real situação que vivemos. A saída desse inferno só será possível quando deixarmos de abraçar devaneios, esquemas simplórios de análise e teorias conspiratórias pedestres. A miopia dos chamados “progressistas” é salutar para Bolsonaro.



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